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21 de nov. de 2016

Teologia conservadora?


Lamentavelmente, as pessoas associaram a ideia de que o "conservadorismo religioso" significa "manter-se fiel a Deus Pai, Filho e Espírito". Um terrível engano que unicamente conserva o atraso, o preconceito e as injustiças sócio-religiosas.

Quando alguém pressupõe defender uma teologia conservadora "em nome do crescimento numérico", temos que perguntar por quais coisas essa teologia pretende conservar. Seria o rito? Seria a institucionalização da fé? A doutrina? Seriam as leituras descontextualizadas acerca da mulher, do negro ou dos homoafetivos? Ou leituras que afirmam a Terra plana, jovem e literalmente criada em sete dias? Ou talvez, uma leitura que pretende fazer prosélitos pela "cruz ou espada"? Ou ainda, a demonização das outras expressões religiosas? Ou quem sabe, leituras que enxergaram na cor da pele do negro o sinal de Caim?

Isso é totalmente destoante do Cristo que releu as Escrituras jogando luz sobre elas de maneira que mudou a vida daqueles que com ele partilharam o pão na Palestina do século primeiro. "Não se põe vinho novo em odres velhos; ao contrário, estouram os odres", disse Jesus tratando da velha e da nova economia da salvação. Existem percepções de mundo que são totalmente anacrônicas com o mundo atual. E como protestante, faço o constante exercício de SER REFORMANDO, EM CONSTANTE REFORMA.

"O protestantismo liberal clássico surgiu na metade do século XIX, na Alemanha, em meio à crescente percepção de que a fé e a teologia cristãs necessitavam, ambas, ser revistas à luz do conhecimento moderno." (MCGRATH, 2005, p. 138). Talvez não seja o caso das igrejas entrevistas na pesquisa, mas a crítica negativa ao esforço teológico de buscar o conhecimento interdisciplinar é algo danoso a Igreja de Jesus.

Albrecht Benjamin Ritschl, defensor da teologia liberal (século XIX), acreditava que somente após a noção de Reino de Deus ser compreendida pela igreja, uma teologia dialogal poderia ser aceita pelas comunidades de fé cristãs. Isto é, somente uma leitura que apontasse a realidade presente do "reino entre nós" (Lucas 17.21), criaria um ambiente progressista para uma teologia não conservadora, que é, "sui generis", exclusivista e antagônica às Escrituras. Paul Tillich aponta o método da correlação: "Ele entende a função da teologia moderna de estabelecer um diálogo entre a cultura humana e a fé cristã [...] A filosofia, a literatura e as artes dos tempos modernos apontam para questões que interessam aos seres humanos. A teologia, por sua vez, formula respostas para essas questões e, ao fazê-lo, correlaciona o evangelho à cultura moderna. O evangelho deve falar à cultura e isso só é possível se as questões concretas, levantadas por essa cultura, forem ouvidas." (Ibidem, 2005, p. 139).

Em nome do crescimento numérico muitas estratégias já foram adotadas pela igreja ao longo de sua história. Desde Constantino Magno até Macedos, Malafaias e afins. Quanto a nós, resta-nos seguir o conselho de Paulo: "[Conservemos] a fé, a esperança e o amor" (1Co 13.13). O que realmente vale a pena ser conservado.

P.S.¹: Ressalto que a prática, destacada na matéria, de ler a Bíblia é de suma importância também para os progressistas cristãos.
P.S.²: O valor do liberalismo do século XIX, limita-se no seu papel mediador entre fundamentalistas e não cristãos; sua visão extremamente otimista do ser humano é amplamente contestada por Barth e Niebuhr, com os quais concordo em parte. Tillich melhor desenvolve a teologia protestante liberal, a meu ver.

28 de jun. de 2016

Karl Barth e a doutrina da predestinação


Uma das características mais interessantes da teologia de Karl Barth é a maneira como ela interage com a teologia do período da ortodoxia reformada. A seriedade com que Barth encarou os escritos desse período foi, em parte, responsável pela criação do termo “neo-ortodoxia”, expressão usada para designar a ampla abordagem de Barth. O tratamento que Barth dispensou à doutrina reformada da predestinação é particularmente interessante, pois demonstra o modo como ele consegue lançar mão de termos tradicionais e atribuir-lhes um novo significado, no contexto de sua própria teologia. A discussão de Barth sobre a predestinação (Church dogmatics [Dogmática da igreja], volume 2, parte 2) fundamenta-se em duas afirmações centrais:
1 - Jesus Cristo é o Deus que elege.
2 - Jesus Cristo é o ser humano eleito.
Essa forte orientação cristológica da predestinação é mantida ao longo de sua análise da doutrina. “Em seu sentido mais simples e abrangente possível, a doutrina da predestinação consiste na afirmação de que a predestinação divina é a eleição de Jesus Cristo. Esse conceito de eleição, porém, faz uma dupla referência - refere-se àquele que elege e também àquele que é eleito”. Portanto, o que exatamente Deus predestinou? A resposta de Barth a essa questão engloba vários elementos, dentre os quais os mais importantes são apresentados a seguir:
1 - “Deus escolheu ser amigo e parceiro da humanidade”. Deus escolheu, por meio de uma decisão livre e soberana, relacionar-se com a humanidade. Barth afirma assim o compromisso de Deus para com a humanidade, apesar do pecado e da corrupção humana.
2 - Deus escolheu demonstrar esse compromisso entregando, pela redenção da humanidade, a Cristo. “De acordo com a Bíblia, foi isso que aconteceu na encarnação do Filho de Deus, em sua paixão e morte e em sua ressurreição dos mortos”. O ato da redenção expressa a atitude de Deus, que elege a si mesmo como redentor da humanidade pecadora.
3 - Deus escolheu suportar toda a dor e todo o preço da redenção. Ele escolheu aceitar a cruz do Gólgota como um trono real. Escolheu também aceitar a porção que pertencia à humanidade caída, especialmente no sofrimento e na morte. Ele escolheu o caminho da auto-humilhação e degradação para redimir a humanidade.
4 - Deus escolheu receber em nosso lugar os aspectos negativos de seu julgamento. Ele rejeita a Cristo, para que nós não sejamos rejeitados. O lado negativo da predestinação que deveria, conforme Barth sugere, ter recaído, por direito, sobre a humanidade pecadora, é, em vez disso, direcionado a Cristo, o Deus que elege e o ser humano eleito.Deus optou por suportar a “rejeição, condenação e morte”, que são as conseqüências inevitáveis do pecado. Assim, “a rejeição não pode vir outra vez a tornar-se a porção ou o destino da humanidade”. Cristo suportou aquilo que a humanidade pecadora deveria ter suportado, para que a humanidade jamais tivesse de suportar isso novamente.
Embora a predestinação contenha um “não”, essa negação não se volta contra a humanidade. Embora a predestinação envolva exclusão e rejeição, não se trata da exclusão e da rejeição da humanidade. Embora ela esteja voltada para a perdição e a morte, não se volta para a perdição e a morte da humanidade.
Assim, Barth elimina qualquer idéia de uma “predestinação para a condenação” em relação à humanidade. O único que é predestinado à condenação é Jesus Cristo que “desde toda a eternidade escolheu sofrer por nós”.

As conseqüências dessa abordagem são claras. Embora todas as aparências indiquem o contrário, a humanidade não pode ser condenada. No final, a graça triunfará, até mesmo sobre a descrença. A doutrina da predestinação de Barth elimina a possibilidade de rejeição da humanidade. Pelo fato de Cristo haver suportado a pena e a dor da rejeição de Deus, isso não mais caberá à humanidade. Aliada a sua ênfase característica sobre o “triunfo da graça”, a doutrina da predestinação de Barth aponta para a restauração e salvação universal da humanidade — uma posição que tem provocado um certo grau de crítica por parte daqueles que, em diferentes condições, seriam favoráveis à perspectiva geral de Barth. Emil Brunner é um exemplo deste tipo de crítica:
O que essa declaração, “que Jesus é a única pessoa realmente rejeitada”, significa para a condição humana? Evidentemente significa isso: Que não há possibilidade de condenação... O julgamento já foi feito em Cristo — e isso serviu para toda a humanidade. O fato de a humanidade ter ou não conhecimento disso, crer ou não nesse fato, não é tão importante. A humanidade é como um grupo de pessoas que parecem estar perecendo em um mar revolto. Contudo, elas, na realidade, não se encontram em um mar onde possam se afogar, mas apenas em águas rasas, nas quais é impossível se afogar. Acontece apenas que elas ignoram esse fato.
Fonte: MCGRATH, Alister E. "Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica."

14 de jan. de 2016

O Coração Pesado e o Coração Leve

(Da direita para a esquerda: o morto, Anúbis e o monstro, Thot e Osíris)

De "coração quebrantado" a "de bom coração": vocês não vão acreditar qual é a origem do uso da palavra "coração" como expressão do interior do ser humano!

Não é surpreendente que o motivo do tornar pesado (ou endurecimento) do coração de Faraó retorne constantemente ao longo da narrativa do Êxodo do Egito. Por exemplo, no capítulo 10 do livro de Êxodo, Deus fala a Moisés "Vai a Faraó, porque tenho tornado pesado o seu coração". Em diferentes lugares da Bíblia, os órgãos internos do Homem, principalmente seus rins e coração, são descritos como órgãos que proveem abrigo às profundezas da alma do ser humano e como os lugares nos quais são maturadas suas decisões mais pessoais e importantes. Daí, não é distante o caminho para a ideia, que é retomada e ensinada na literatura bíblica, que vê no coração o reflexo fiel das características de alguém.

Então, qual é a origem daquele entendimento que dá ao coração a função de refletir o que está na interioridade? É possível que seja o mundo de idéias e religião dos egípcios antigos e o exame da pesagem do coração.

Os antigos egípcios criam no conceito de juízo que acontecia depois da morte. Neste julgamento, era pesado o coração do homem sobre uma balança diante da deusa Ma'at, que incorporava a justiça, a verdade e a ordem correta do mundo. O coração da pessoa que, em vida, agiu conforme a Ma'at, ficaria leve sobre o prato da balança, sendo contado como digno de ganhar a vida eterna no reino do rei do mundo dos mortos, o deus Osíris.

Mas, se o coração fosse pesado de pecados, seria sentenciado aos animais da destruição e perdição. O coração pecador seria comido pelo monstro "engolidor" - uma mistura de crocodilo, leão e hipopótamo -, que permanecia embaixo da balança.

O relevo na foto, exibido no átrio de uma tumba egípcia, tem desenhados nele a pesagem do coração do dono da tumba. O deus que tem a cabeça de chacal, Anúbis, calibra a balança, enquanto Thot, patrono dos escribas, faz o relatório dos resultados do julgamento a Osíris, descrito como o rei das múmias. Conforme é possível ver no relevo, o coração do morto é mais leve do que Ma'at, conseguindo a vida eterna no mundo dos mortos. Descrições do juízo dos mortos foram usados como métodos mágicos, para garantir que o morto sairia inocente do julgamento e, por isso, frequentemente mostram também os resultados que seriam esperados.

"Coração pesado" aparece no Antigo Testamento somente no contexto da narrativa do Êxodo do Egito. Talvez não seja casual que o autor bíblico tenha escolhido utilizar justamente essa expressão, que alude à ideia de maldade no Antigo Egito, conforme é expressada no julgamento dos mortos.

Prestem atenção que, até hoje, nós utilizamos a palavra "coração" para expressar qualidades e estados psíquicos como "coração pleno", "coração de ouro" etc.

Tradução: Erike Couto

3 de dez. de 2015

Aproximações entre Brahman e Jesus


Dos deuses védicos o que mais se assemelha ao Deus cristão é, sem dúvidas, Brahman. Segundo os mais antigos Upanixades, ele é identificado como "o Um" neutro, o ser primeiro. Este ser é "impensável, ilimitado, eterno, o Um e o todo, 'Criador' e 'senhor' do mundo". Ele encerra em si todos os atos, desejos, odores e paladares. Os indianos acreditavam o "atman" que habitava em seus corações, ainda que fosse menor que um grão de cevada, menor que um grão de mostarda, ele seria maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que todos os mundos. "Abrangendo todos os atos, todos os desejos, ... abrangendo todo este mundo, ... isso é meu 'atman' no coração; isso é Brahman. Ao morrer, eu entrarei nele", acreditavam os indianos (Brhadaranyaka Up., III, 7, 3).

O "atman" representa a essência divina no homem. Segundo o Rig Veda, X, 90, Brahman habita o coração do homem, através do "atman", o que implica a identidade entre o verdadeiro "Eu" e o ser universal. No "post mortem", o "atman" se une ao Brahman no "mundo do relâmpago". Lá os que morreram encontram uma "pessoa espiritual" ("purusa manasah", isto é, "nascido do espírito"), e esta o conduz até os mundos de Brahman, onde viverão durante muito tempo e não retornarão mais. A união do "atman" com o ser universal (Brahman) constitui de alguma forma uma "imortalidade impessoal": o "Eu" confunde-se em sua fonte original, Brahman. "A luz que brilha além desse Céu, além de tudo, nos mais altos mundos além dos quais não há coisas mais altas, é na verdade a mesma luz que brilha no interior do homem" (Chandogya Up., III, 17, 7).

De modo semelhante o Deus dos hebreus, Javé, é identificado como "o Um" por seus seguidores (Dt 6.4). De igual modo, Javé é eterno, todo poderoso, completo, criador de todas as coisas e seu senhorio é testificado na Bíblia. A finalidade do mundo e os atos de Deus são lembrados por Paulo na carta aos romanos (11.36). Enquanto para os indianos o "atman" habitava no coração do homem, para o judeu era a "ruach" ("espírito"; "fôlego de vida") que habitava no homem. Ao morrer, o espírito do homem retorna para Deus (Ec 12.7). 

O cristianismo concebeu a ideia de que o Espírito Santo, o espírito de Deus, habita no homem (1 Co 6.19). Assim, Deus habita no homem através do Espírito. A promessa bíblica aos seus seguidores é que o Cristo, filho de Javé, irá conduzir os seus até o Pai  através do Espírito. Uma das tarefas do Espírito é aperfeiçoar o fiel até o dia em que ele encontrará o seu Criador (Fp 1.6), nesta vida ou após dela. No seu Deus, o cristão encontra a imortalidade. "Seremos semelhantes a ele", afirmou João (1 Jo 3.2). O cristão ("pequeno Cristo") é, então, uma pequena fração de seu Deus: de dentro do cristão brilha uma luz que não é sua, mas do próprio Deus.

Referências retiradas de: ELIADE, Mircea. "História das Crenças e das Ideias Religiosas" - Vol. I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro, Zahar, 2010, p. 231-233.

24 de nov. de 2015

Os filipenses e a temperança


Filipos foi uma importante cidade Macedônia, colonizada por Roma e importante entrada para a Europa dos povos oriundos da Ásia. Durante sua segunda viagem missionária, o apóstolo Paulo passou pela Macedônia. Antes de entrar naquela região o apóstolos dos gentios teve uma visão de um homem macedônio que lhe dizia "passa à Mecedônia e ajuda-nos". A primeira cidade que ele passou foi justamente a cidade de Filipos.

Nesta cidade Paulo e Silas pregaram para algumas mulheres que estavam à margem do rio. Lídia, uma vendedora de púrpura, recebeu a mensagem do Evangelho e juntamente com sua casa fora batizada. Após este evento, Paulo e Silas foram presos por expulsarem o "espírito de adivinhação" de uma escrava. Na prisão um terremoto derrubou as paredes e o carcereiro foi convencido por Paulo a não se matar, uma vez que os demais presos fugiram, e juntamente com sua casa fora batizado. Assim começou a igreja de Filipos.

Essas duas famílias não apenas cresceu a igreja de Filipos numericamente, mas também a fez crescer enquanto comunidade cristã. Esta igreja enviou recursos financeiros para Paulo em Tessalônia (Fl 4.16), em Corinto (2 Co 11.9) e agora novamente por intermédio de Epafrodito. O bom testemunho da comunidade cristã de Filipos é atestada por Paulo no capítulo inicial da carta, Carta esta que tem pouco ensejo doutrinário. Antes é uma carta de agradecimento, contendo alguns conselhos paulinos.

Paulo escreve da prisão (provavelmente Roma). Tendo em vista os conselhos dados pelo apóstolo, podemos compreender que Epafrodito relatou a Paulo sobre os problemas vividos pela igreja de Filipos: judaizantes. Estes julgavam a igreja de Filipos por não seguirem os costumes judaicos e, por conseguinte, serem pecadores. Isso afetou a comunidade de Filipos, que prezava por seu bom testemunho. "Nós acolhemos Paulo quando veio a nossa cidade, lhe suportamos financeiramente e com nosso amor, demos bom testemunho e, assim, a igreja cresceu aqui. Por que passamos por isso?", poderiam indagar os filipenses.

Paulo recomendou que a comunidade que permanece unida no "mesmo sentimento" (2.2); que se lembrassem da "kenósis" do Cristo, que mesmo sendo Deus, abriu mão de sua glória e fez-se comum, igual aos homens, mas foi exaltado pelo próprio Deus. Paulo lembra que o próprio Cristo assumiu a postura de um escravo (2.7), humilhado pela vexatória cruz. Assim os Filipenses deveriam agir: buscar a humildade que está presente no Cristo que se esvaziou e foi glorificado pelo Pai - não pelos homens!

Paulo ainda diz aos filipenses que tais judaizantes não possuem outro deus senão o "próprio ventre" (3.19). Eles seguiam mandamentos que de nada serviam para a vida cristã. Paulo lembra aos filipenses que ele mesmo era "hebreu filho de hebreus", da tribo de Benjamin, fariseu, cumpridor da Lei, mas que para ele tudo isso tinha valor de "esterco" (3.8).

O prisioneiro Paulo incentiva os irmãos filipenses a manter a alegria que Deus lhes proporcionou através de Cristo Jesus. Incentiva-os a manterem-se moderados, isto é, que vivam a vida cristã com temperança, buscando a medida correta para a vida. "Não é o que vocês comem, bebem, leem, escutam, conversam, que dita qual perto ou longe estão de Deus", poderia dizer. "O Senhor está próximo [de vocês]" (4.5). Ele exortou ainda para que nada tirasse a paz dos irmãos, mas que as suas dificuldades, mediante as acusações, fossem apresentadas a Deus, pois o próprio Deus lhes proporcionaria uma paz que excederia qualquer compreensão.

"Finalmente, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor" (4.8). Paulo convida aos filipenses a enxergarem o Deus que se manifesta para além da Lei; para além da religião. Paulo fala de uma Verdade superior, a qual não está presente apenas dentro da religião. Agostinho expressou isso do seguinte modo: "Se aqueles que são chamados de filósofos, em especial os platônicos, disserem qualquer coisa que seja verdadeira e consistente com nossa fé, não devemos rejeitá-la, mas antes reivindicá-la para nosso uso, conscientes de que eles a possuem injustamente... De fato, entre eles [pagãos] encontram-se algumas verdades relativas à adoração do Deus único... Portanto, o cristão é capaz de separar essas verdades de suas infelizes associações, separando-as e utilizando essas verdades de maneira adequadas à proclamação do evangelho." Logo, Deus deve ser procurado pelos cristãos onde Ele estiver: na natureza, na música, na literatura, na poesia, na arte, etc.

Paulo recomenda o que também praticou. "O que aprendentes e herdastes, o que ouvistes e observastes em mim, isso praticai. Então o Deus de paz estará convosco." Paulo em sua carta aos filipenses incentiva que na prática do amor, eles crescessem em conhecimento e sensibilidade (1.9). Conhecimento de Deus e sensibilidade para enxerga-lo onde quer que ele se manifestasse. Isso é maior do que qualquer observância da lei do "isso pode", "isso não pode". Nem a rigidez da Lei, nem os excessos do hedonismo: a vida anseia por temperança, por moderação.

Ciente de que a Verdade poderia estar em meio pessoas e coisas estranhas à vida cristã, Paulo afirma que seu interesse é de que a Verdade seja exposta ao mundo. Não importa o modo (1.17-19). Seja na banda de rock do cantor dependente químico, seja no quadro do pintor promíscuo, seja no livro do escritor bêbado, ou mesmo na natureza que insistimos em maltratar. Paulo exorta aos filipenses para buscarem por BELEZA. Mas não por qualquer tipo de beleza, que a cada época é re-significada com novos padrões. Mas de uma beleza que expresse a origem da palavra própria palavra "beleza": "Bet-El za", isto é, "lugar onde Deus brilha".

E onde Deus brilhar seus seguidores o reconhecerão, pois conhecem a sua voz (Jo 10.1-4). E ainda que os demais acusassem os filipenses de serem pecadores ("avon", isto é, "errar o alvo"), eles deveriam fazer como o apóstolo: "Irmãos, não julgo que eu mesmo já tenha alcançado, mas uma coisa eu faço: esquecendo-me do que fica para trás [a Lei] e avançando para o que está diante [a graça], prossigo para o alvo" (3.13-14). Paulo nos diz, em outras palavras: "Não se preocupem com o que as pessoas dizem sobre vocês, por vocês escutarem música 'secular' ou beber bebida alcoólica. Mantenham um testemunho verdadeiro diante das pessoas e apresentem os seus problemas a Deus, que está próximo de vocês. Busquem a face de Deus, não na legislação da vida, por meio de métodos para se alcançar Deus: ele está na vida, procurem por ele! Olhem para o verdadeiro Belo que está no mundo. Ainda que lhes acusem de estarem errando o alvo, façam como eu: não dê ouvidos; sigam a diante! E Deus irá lhes acalmar o coração."

17 de nov. de 2015

Protestantes históricos e pentecostais: como se relacionar de maneira saudável?


Existe entre uma parcela de cristãos, certa confusão acerca dos dons conferidos pelo Espírito Santo de Deus à Igreja. Muitas vezes é percebido que esta confusão se dá principalmente nas igrejas pentecostais. No contexto brasileiro o cristianismo protestante se diversificou, ramificando-se em segmentos cada vez menores, e mais distantes de sua raiz histórica em busca de acompanhar os movimentos carismáticos que emergiam nos Estados Unidos. Muitos destes novos segmentos aderiram ao pentecostalismo. Mas qual pentecostalismo?

Sim, há mais de um. O pentecostalismo pode, e deve, ser compreendido como um movimento heterogêneo, como suas muitas percepções e divergências internas. Segundo o sociólogo Paul Freston, "O pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda na década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). A segunda onda pentecostal ocorreu nos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem: a Quadrangular (1951), Brasil Para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O contexto dessa pulverização é paulista. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Suas principais representações são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) (...) O contexto é fundamentalmente carioca” [1].

Cada uma dessas ondas, como indicado por Freston, possui suas características. A primeira onda, o Pentecostalismo Clássico, é marcada por ter sofrido discriminação dos protestantes históricos e perseguição da Igreja Católica desde a chegada deste pentecostalismo no Brasil. Isso gerou entre eles um ferrenho anticatolicismo. A reflexão bíblica das igrejas da primeira onda resulta em uma ênfase no dom de línguas como evidência do batismo no Espírito Santo (também chamado de "segunda bênção"), na crença na volta iminente de Cristo, na crença na salvação paradisíaca e num ascetismo de rejeição do mundo exterior. De modo geral, são radicalmente sectários.

A segunda onda, o Deuteropentecostalismo, chegou ao Brasil através da Foursquare International Gospel Church, trazendo ao país o evangelismo de massa. Sua teologia enfatiza a centralidade da mensagem na cura divina e cresceu sobremaneira por meio de campanhas em prol de conquistas de cura, finanças, etc. Difundiram-se pelo rádio, por evangelismo itinerante em tendas de lona, de concentrações em praças públicas, estádio de futebol, teatros, etc.

A terceira onda, o Neopentecostalismo, é marcada pela participação ativa na política partidária, com uso intenso dos meios de comunicação em massa para propagação de suas ideias, bem como a manutenção de estrutura empresarial para administração dos templos. Além disso, estas igrejas incorporam o uso de técnicas de marketing para a indução a doações (teologia da prosperidade). A reflexão bíblica dos neopentecostais faz com que sua mensagem gire em torno da função terapêutica baseada na cura divina, nos rituais de exorcismo (“guerra santa”), nos cultos propensos á catarse individual e coletiva, de modo a estimular a expressividade emocional em ritos de cura e exorcismo. O neopentecostalismo também é marcado pelo antiecumenismo e forte oposição aos cultos afro-brasileiros.

Em sua maioria as igrejas que surgiram entre a segunda e terceira onda, nasceram a partir de conturbadas cisões. Segundo o IBGE a cada dia doze novas denominações abrem suas portas. Nas comunidades deste bloco que vai da segunda à terceira onda, há grande apelo para uma interpretação literalista da Bíblia e o estudo da Teologia é desincentivado por seus líderes. Exemplo disso é o livro "A libertação da Teologia", de autoria do líder da IURD, Edir Macedo.

Contudo, vale destacar que é um engano dizer que as igrejas carismáticas são ateológicas, de modo a generalizar os pentecostais. Há, principalmente nas igrejas da primeira onda, certo incentivo ao estudo teológico. Ainda que este estudo seja estritamente confessional àquela comunidade de fé.

Fato é que as igrejas pentecostais surgiram em comunidades carentes, para atender as demandas religiosas de pessoas muitas vezes não alcançadas pelas igrejas históricas. Estas últimas que, tradicionalmente, foram estabelecidas, salvo raras exceções, em bairros mais centrais ou mais ricos. O apelo proselitista pentecostal, seu carisma receptivo, sua proposta religiosa e terapêutica, fez com que se tornasse o maior grupo religioso dentre os protestantes, superando em número de membros os protestantes históricos. Até mesmo os cristãos católicos sofreram perda de membros para as igrejas pentecostais. Algumas igrejas se tornaram carismáticas, em busca de se manterem vivas.

O relacionamento protestantes históricos/pentecostais sempre foi conturbado. Os protestantes históricos sempre olharam desconfiados para a interpretação bíblica feita pelos protestantes pentecostais. Por sua vez, os pentecostais desconfiavam da seriedade dos protestantes históricos em relação ao entendimento do Espírito Santo e sua manifestação na Igreja. As principais divergências de pensamento entre os dois grupos se dão em relação à teologia aplicada em suas igrejas, tendo a interpretação em relação aos dons espirituais como cerne. Mas como interpretar os dons espirituais? Sola Scriptura.

Sendo todos os protestantes, tanto históricos quanto pentecostais, filhos da Reforma Protestante do século XVI, o conceito da primazia das Escrituras deve ser mantido para interpretação dos dons espirituais. Para Terence Paige, "as comunidades cristãs primitivas tinham o Espírito em seu meio, na percepção da imanência de Deus durante o culto, na realização de milagres e na inspiração da profecia, na experiência de coragem e sabedoria para anunciar o evangelho, mesmo em circunstâncias difíceis, e nos sentimentos de alegria. Para os cristãos primitivos, essas experiências eram provas de que o Espírito estava presente e atuante" [2]. Para não delongarmos muito sobre o assunto, os dons espirituais devem ser compreendidos como a capacitação do Espírito Santo à Igreja no cumprimento da anunciação do Evangelho, em tarefas onde o homem se encontra incapaz de realizá-la por si só; e também como a forma pela qual Deus age na regeneração do Ser Humano.

Como, então, a igreja histórica pode se relacionar, de forma saudável, com os pentecostais?

Não é tarefa fácil. Mas também não é impossível. Para todo relacionamento entre pessoas de pensamentos distintos, deve-se prevalecer em primeiro lugar o respeito pela diferença. Deve-se, ainda, celebrar a diversidade, pois estamos todos fazendo a mesma coisa: Estamos interpretando as Escrituras, cada um de nós com sua especificidade. Um exemplo de tentativa de convivência sadia é visto em igrejas como a Igreja Presbiteriana Unida (IPU). Essa igreja tem em sua carta fundante (o Manifesto de Atibaia) o incentivo ao "diálogo e comunhão uns com os outros" [3], e orientação para o ecumenismo [4]. A dificuldade neste processo se dá ou no momento em que o diálogo se torna proselitista e o ecumenismo é estritamente utilitarista para esta finalidade, ou quando o respeito e comunhão se acontecem apenas quando as igrejas estão separadas, histórica de um lado e pentecostais de outro, cada uma em seu canto. "Eu cá, eles lá". Isso não é relacionamento saudável. Nem mesmo é relacionamento.

Por fim, as barreiras para esta convivência sadia estão mais ligadas às especificidades de cada grupo. Necessário é descobrir quais são as dificuldades individuais das igrejas para que o espaço de diálogo seja experimentado e respeitado. Isso com a consciência de que, no processo de aproximação entre cristãos históricos e pentecostais, a verdade de um não anula a verdade do outro. E convenhamos: Saber dialogar nestes dias, em que as paixões - principalmente as políticas - estão tão afloradas e efervescentes, é uma arte!

1 - MARIANO, Ricardo. “Neopentecostais”: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
2 - HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. (orgs.). “Dicionário de Paulo e suas cartas”. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
3 - Manifesto de Atibaia, 10 de setembro de 1978.
4 - Princípios de Fé e Ordem da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. Artigo 3º, Parágrafo "E".

10 de nov. de 2015

Sobre pedras e eternidade


"Deus colocou a eternidade no coração do homem" (Ec 3:11);
"...e essa pedra era Cristo" (1Co 10:4).

Ao contemplarmos os grandiosos monumentos megalíticos dos primeiros agricultores da Europa ocidental, não podemos deixar de recordar um certo mito indonésio: no começo, quado o Céu estava muito próximo da Terra, Deus compensava o casal primordial com presentes suspensos à extremidade de uma corda. Um dia, enviou-lhes uma pedra, mas os nossos ancestrais, surpreendidos e indignados, a recusaram. Depois de algum tempo, Deus desceu novamente a corda; desta vez, com uma banana, que foi prontamente aceita. Então se fez ouvir a voz do Criador: "Já que escolhestes a banana, vossa vida será como a vida desse fruto. Se tivésseis escolhido a pedra, ela teria sido como a existência da pedra, imutável e imortal."

[...]

Os mortos retornam ao seio da terra-mãe, na esperança de participar da sorte das sementes; mas eles são além disso, misticamente associados aos blocos de pedra, e, por conseguinte, tornam-se poderosos e indestrutíveis como os rochedos.

[...]

É muito provável que essas pedras constituíssem uma espécie de "substitutos do corpo", aos quais se incorporavam as almas dos mortos. Afinal, um "substituto" de pedra era um corpo construído para a eternidade.

[...]

"Cumpre também não esquecer o sentido sexual dos menires, pois é universalmente atestado, e em níveis de cultura distintos. Jeremias (2:27) evoca aqueles "que dizem à madeiras: 'Tu és o meu pai!' e à pedra: 'Tu me geraste!'" (Entretanto, até um tratado vigorosamente javista como o Deuteronômio ainda utiliza a metáfora ontológica da pedra, ao proclamar a realidade absoluta de Deus como fonte única de criatividade "Desprezes a Rocha que te deu à luz, esqueces Deus que te gerou!" (32:18).

Extraído de: ELIADE, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas - Vol. I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro, Zahar, 2010, p.120-122.

9 de nov. de 2015

AINULINDALË: o mito da criação da Terra Média


Sou apaixonado por cosmogonias e teogonias mitológicas. Cada uma com sua especificidade nos monstra como o ser humano nasceu e vive em busca por respostas e, assim, explicar o mundo de acordo com seus conhecimentos e limitações. Uma mitologia literária em particular, que gosto muito, é oferecida por J. R. R. Tolkien, em o Silmarillion: "Ainulindalë".

Segundo Tolkien, Eru, o Único, também conhecido como Ilúvatar, teria criado os Ainur, uma espécie de seres celestiais que lhe faziam companhia antes que tudo mais fosse  criado. Eru lhes propôs uma música com "um tema poderoso, desdobrando diante de seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplêndidas do que havia revelado até então". E juntos, os Ainur criaram uma Música Magnífica, inspirados pela Chama Imperecível de Eru. O Único sentou-se para escutar e alegra-se com a música que os Airnur cantavam. E para Eru "aquilo lhe pareceu bom".

Enquanto Eru se deliciava com a música dos Ainur que seguiam o tema proposto por Eru, no coração Ainur , um dos Ainur, surgiu "o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado". Em Melkor "ardia o desejo da dar Existência a coisas por si mesmo". E sozinho, seus pensamentos diferenciavam-se de seus irmãos. Tais pensamentos se entrelaçaram com sua música. Sua música começou a influenciar os Ainur mais próximos.

Eru percebendo a mudança violenta na música, levantou-se e sorriu. Propôs um novo tema e começaram a cantar os Ainur. Contudo, Melkor novamente interferiu na música com seus pensamentos. Eru tornou a levantar, contudo com uma severa expressão. Um terceiro tema proposto, e nova música faziam os AinurMelkor ergueu sua voz e novamente destoou do tema proposto por Eru. O Único levantou-se e "sua expressão era terrível de ver". E disse:

"Poderosos são os Ainur,e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram. E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou". E continuou: "Contemplem sua  Música!"

E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som. E eles viram um novo Mundo tomar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio, e enquanto contemplavam perplexos, esse Mundo começou a desenrolar sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia. E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer:

"Contemplem sua Música! Este é seu repertório. Cada um de vocês encontrará aí, em meio à imagem que lhes apresento, tudo aquilo que pode parecer que ele próprio inventou ou acrescentou. E tu, Melkor, descobrirás todos os pensamentos secretos de tua mente e perceberás que eles são apenas uma parte do todo e subordinados à sua glória".

Na cosmogonia tolkiana da Terra Média, Melkor seria o responsável por todos os problemas oriundos da terra: guerras, mortes, doenças, enchentes, tempestades, secas, etc.

Uma obra de arte da literatura.

28 de out. de 2013

O encontro de Davi, Absalão, El e Baal


Boa parte do Antigo Testamento dedica-se a relatar o conflito entre Deus, El - "Elohim" plural de "El", logo, "deuses" -, e Baal - "senhor". Suas representações estão nas narrativas da Criação onde Elohim decide criar a vida, na oferenda de Caim e Abel - Agricultura contra Pastoreio de animais -, em Elias e Jezabel, na eliminação de povos pagãos pós êxodo, etc. Contudo, um episódio do conflito nos chama a atenção devido sua maneira sutil de relatar a disputa entre os deuses. A história de Davi e seu filho Absalão.

Absalão assassinou seu irmão durante a celebração da festa da tosquia das ovelhas, o qual era anfitrião, na cidade de Baal-Hazor ("Côrte de Baal"), fugiu para a terra de sua mãe e lá ficou por três anos. Após seu retorno, Absalão traçou planos para substituir seu pai no trono de Israel e o pôs em prática. Aos poucos ganhou a aprovação do povo e mensageiros chegavam até o rei Davi para lhe anunciar que "o coração de cada um em Israel segue a Absalão". Davi sai com parte de sua casa real em uma viagem, porém deixou dez de suas esposas concubinas em casa. Instruído por Aitofel, Absalão vai até a casa, leva as concubinas de seu pai para o terraço da casa e debaixo de uma tenda faz sexo com as mulheres de seu pai para que toda a cidade veja. Mais adiante, Davi é obrigado a fugir para Maanaim e agrupando forças, volta para combater e vencer Absalão.

E onde entra Baal nesta história?

Baal é uma divindade cananeia que em determinado momento, junto a seus cúmplices, ataca El de surpresa em seu palácio no monte Sapân e conseguem amarrá-lo e feri-lo. Segundo Mircea Eliade, El teria sido castrado por Baal e, assim, nunca mais poderia ser "soberano". A genitália masculina tinha significado importantíssimo nas relações sociais e religiosas do Oriente antigo. No Antigo Testamento, a marca da circuncisão no órgão masculino designa a nacionalidade e comprometimento com Deus. Baal não somente castra El, como também rouba-lhe a mulher e seu trono sobre o monte Sapân. El é obrigado a refugiar-se nos confins do mundo. Yam vai em socorro á El e vence Baal expulsando-o do monte Sapân¹.

No relato do conflito familiar na casa de Davi, podemos ouvir ecos do um conflito entre dois deuses do panteão cananeu, cujo nome do deus El é incorporado na religião dos israelitas - Elohim. A revolta de Absalão trouxe á memória do povo de Jerusalém, que nunca foi monoteísta, o conflito dos deuses. O ato de subir no terraço faz paralelo ao subir ao monte, que por sua vez indica o "lugar mais próximo do céus". Absalão, assim como Baal, toma mulheres de seu pai. Embora não corte a genitália de seu pai, rouba-lhe a soberania ao usurpar-lhe o trono. A afronta de Absalão é contra o reino, contra seu pai e contra o próprio Deus. O povo vislumbra a epopeia de Absalão tendo como pano de fundo a batalha entre Baal e El.

¹ - ELIADE, Mircea. "História das crenças e das ideias religiosas I": da idade da pedra aos mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 153-155.

11 de dez. de 2012

Criação contínua

(Heschel - barba cumprida - ao lado de Martin Luther King Jr., na Marcha sobre Washington)

"A criação, somos ensinados, não é um ato que ocorreu uma vez no tempo, uma vez e para sempre. O ato de trazer o mundo à existência é um processo contínuo. O chamado de Deus trouxe o mundo à existência, e este chamado prossegue. Existe este momento presente porque Deus está presente. Cada instante é um ato de criação. Um momento não é terminal mas um lampejo, um sinal do Começo. O tempo está em perpétua inovação, um sinônimo para a criação contínua. O tempo é a dádiva de Deus ao mundo do espaço.

Um mundo sem tempo seria um mundo sem Deus, um mundo existente em si e por si, sem renovação, sem um Criador. Um mundo sem tempo seria um mundo apartado de Deus, uma coisa em si própria, uma realidade sem realização. Um mundo no tempo é um mundo a prosseguir através de Deus; a realização de um desígnio infinito; não uma coisa em si mas, uma coisa de Deus.

Testemunhar a perpétua maravilha do mundo vindo a existência é sentir a presença do Doador no doado, compreender que a fonte do tempo é eternidade, que o segredo de ser é o eterno dentro do tempo [...] Para os homens sozinhos o tempo é ilusório; para os homens com Deus o tempo é eternidade em disfarce.

A Criação é a linguagem de Deus, o Tempo é Seu cântico, e as coisas do espaço, as consoantes na canção. Santificar o tempo é cantar as vogais em uníssono com Ele."

HESCHEL, Abraham Joshua. O Schabat: seu significado para o homem moderno.São Paulo: Perspectiva, 2012, p. 141-142.

26 de nov. de 2012

Cajadada?


Desde que comecei a frequentar uma igreja evangélica ouço o termo cajadada incluso na seguinte expressão:

O pastor deu uma cajadada em fulano.

Sempre entendi que essa frase queria dizer que o pastor havia repreendido alguém por ter cometido algum erro. Mas com o tempo percebi que muitos dos que levavam uma cajadada se distanciavam dos outros irmãos, por vergonha ou porque os irmãos passavam a evitar alguém que tomasse a tal cajadada. Não era incomum que com o tempo estes saiam da igreja. Ouvi histórias de pessoas que saíram de gabinetes pastorais aos prantos após uma conversa com algum pastor. O cajado tomou forma de porrete.

Muitas vezes a cajadada era coletiva. Todo mundo dividia o coro que o pastor aplicava do alto do púlpito. Isso muito me lembrava de quando era pequeno e um dos irmãos aprontava, os três apanhavam. Com o microfone numa mão e a Bíblia na outra, alguns pastores costumam descascar fiéis por motivos sérios ou banais, em muitos casos. Já ouvi um pastor cobrar os irmãos de que na reunião anterior havia recolhido pouca oferta e, assim, distribuiu meia hora de cajadada. Nesta ocasião uma pessoa que estava sentada ao meu lado disse, "olha a cajadada!". E sorriu como que concordando com a repreensão. Afinal de contas, o homem que estava com o microfone nas mãos era "o pastor" e, por conseguinte, o portador do cajado.

No entanto, o Salmo 23 nos diz que o cajado do pastor não é usado para machucar as ovelhas que cometem "delitos". Este salmo é uma poesia construída em duas experiências diferentes, a do "Pastor e Ovelha" e, a do "Fugitivo e o Anfitrião". A história do Anfitrião e o Fugitivo (v. 5 e 6) fundamenta-se na experiência de um homem que provavelmente seria condenado pela sua comunidade, por ter violado algum tipo de conduta em seu clã (ver Dt 19:1-7). Ás vezes tal individuo fugia errante pelo deserto enquanto a comunidade ainda dormia. Logo pela manhã ao sentirem sua ausência, o clã enviava alguns homens a sua captura, caso ele sobrevivesse a fuga do deserto - como nas histórias de Moisés e Jacó, que fugiram.

O fugitivo chegava quase morto em uma estrutura que havia sacerdotes. Ali era recebido pelo Anfitrião que proporcionava acolhimento integral, no qual depois de um banho, uma taça de vinho transbordava sobre a mesa. Neste lugar tal Fugitivo era honrado com perfume sobre a cabeça. O sacerdote que o recebia em sua casa nada lhe perguntava, simplesmente o recebia, mesmo sabendo que ele estava ali por ter cometido algum delito grave. Quando seus perseguidores se aproximavam e percebiam onde estava, nada poderiam fazer, pois a hospitalidade era sagrada no Oriente e por isto inviolável. Então, o salmista brinca com seus inimigos diante da hospitalidade proporcionada pelo Anfitrião - "prepare-me uma mesa diante dos meus inimigos".

Depois de alguns dias quando seus perseguidores percebiam que não poderiam captura-lo, iam embora. O sacerdote colocava duas escoltas (homens) para acompanhá-lo a uma nova tribo para que o então Fugitivo iniciasse nova vida. O salmista novamente faz desta escolta a Misericórdia e Bondade do Senhor-Anfitrião que o acompanharão todos os dias de sua vida. E ainda deixa em aberto a possibilidade de ter que desfrutar deste acolhimento em dias futuros. Ou seja, o perdão é renovável.

O cajado do pastor de verdade não machuca. Ele tem duas extremidades: com a circunflexa, resgata a ovelha caída; com a pontiaguda, dá toques leves em suas patas frágeis para que as ovelhas tomem seu caminho e na eventualidade de lobos atacarem, defende as ovelhas. Como disse o salmista "o teu cajado me consola". Consolo este que vem acompanhado da Misericórdia e Bondade, sem jamais machucar as ovelhas com autoritarismo. Sem as duas escoltas dadas pelo nosso Senhor-Anfitrião, não existe cajado que consola. Apenas cajadadas.

24 de set. de 2012

O óleo do Monte das Oliveiras


"Mas ele foi [...] moído por causa das nossas iniqüidades."
Isaías 53:5

O ator e diretor Mel Gibson nos deu uma imagem da violenta da Paixão de Cristo, em A Paixão de Cristo, e esta imagem vermelha irá permanecer por décadas na mente de quem assistiu ao filme. De fato Jesus sofreu e foi terrivelmente exposto a atos de violência física e psicológica. No entanto, há um erro de compreensão no paralelo da profecia do profeta Isaías com a descrição do evento no Novo Testamento. "Ele foi moído". Mas "moído" por quem?

Ao leste da cidade de Jerusalém encontra-se o Monte das Oliveiras (Mc 14.26), onde havia uma vasta plantação de Oliveiras que supriam, em parte, a necessidade de óleo da cidade e de regiões próximas. No entanto, importava-se de Peréia certa quantidade de azeitonas para a extração do óleo usado no Templo. Embora possa parecer estranha a importação deste importante alimento de uma região pagã, há no Talmude indicações de que as azeitonas eram levadas até Jerusalém para somente ali serem prensadas em lagares, como no Getsêmani. "Getsêmani" significa lagar, máquina onde se espremem uvas, azeitonas, prensa para bálsamos.

Jesus se proclama o Ungido do Senhor prometido, que veio para "evangelizar os pobres e curar os quebrantados do coração" (4.18). Ungido é um dos significados do nome/substantivo Cristo, do grego "Christós", do hebraico "Mashíach" (Messias). A "unção" veterotestamentária se dá no derramamento de óleo sobre a pessoa ou animal (Êx 29; Lv 8:12; Ec 9:8). Jesus é banhado de ungüento por uma mulher, de nome infelizmente desconhecido, e ele afirma que essa atitude seria lembrada onde o Evangelho fosse anunciado tamanha a importância daquele ato.

Por conseguinte, ele vai ao Monte das Oliveiras, num "lugar chamado Getsêmani" (Mt 26:36). Separa alguns discípulos para com ele orar devido a tristeza e angústia que estava sobre si. No Getsêmani, lagar de azeitonas, o Ungido de Deus é moído, como uma azeitona. Naquele lagar, é extraído dele óleo precioso. E não foram os socos e ponta-pés, chicotadas e porretadas que espremeram o Cristo. Na sua oração compreendemos o que os escritores do Evangelho tentaram nos dizer: no Getsêmani, lugar de extrair o óleo, do Messias é retirado o óleo por meio da negação de sua vontade.  É por isso que ele repreende os discípulos por não orar, prevendo que cairiam na tentação de fazer suas próprias vontades (Mt 26:41; 51).

Jesus de Nazaré e Jesus Cristo estavam presentes naquele que em meio a angústia e o medo, verte suor e sangue, por Hemartrose, clamando ao Pai por alívio e amparo: "se queres, passa de mim este cálice". E orou intensamente pela noite afora. Mas ao deparar com seus discípulos dormindo acorda-os e lhe diz para orar para que não caiam em tentação. Ele pede para os discípulos orem para não cair em tentação eele mesmo ora ao Pai pedindo socorro, mas reconhece que não é a sua vontade, mediante ao medo, que deve ser feita e sim a vontade do Pai: "todavia não se faça a minha vontade, mas a tua".

De Jesus, no lagar do Monte das Oliveiras, é extraído óleo curador para a humanidade na autonegação da vontade própria, por meio do moer. Sim, "ele foi moído". E no moer de Deus, o Cristo cumpre o propósito de Deus para sua vida. No Getsêmani, aprendemos que a unção que se espera de cada um de seus filhos é a obediência: "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando" (Jo 15:14). E o mandamento é: "Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei" (v.12).

Jesus foi moído. Moído por si mesmo no ato de negar a sua vontade e se submetendo a vontade de Deus. É isso que o episódio do Getsêmani quer nos dizer. De modo semelhante o cristão é aquele que passa pelo lagar da vida estando em inconformidade com a ideologia presente no mundo (Rm 12.2), vivendo como pessoas novas (Jo 3.3), cumprindo a justiça (Mt 5.20), sendo mensageiros da paz (Mt 5.9), negando a suas próprias vontades e natureza (Lc 9.23) e seguindo-o... até a cruz! O óleo era um alimento para o judeu. E o "óleo" proposto pelo Cristo deve ser o nosso alimento.

12 de set. de 2012

Justiça X Bondade




"A parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20:1-16) fala de um proprietário que paga o mesmo salário aos seus trabalhadores (o usual, de diarista), independente do trabalho prestado. Nessa passagem, encontramos uma descrição concreta de como os hebreus e judeus aplicavam o termo justiça. Ela 'também abrange a bondade de Deus que se volta às pessoas. Essa palavra de origem hebraica, que resiste a todas a traduções, expressa simultaneamente, os dois atributos principais de Deus, fundindo bondade e justiça para formarem uma unidade superior', explica o teólogo judeu Pinchas Lapide.

Em nosso entender de justiça, a situação descrita na parábola dos trabalhadores na vinha poderia, tranqüilamente, ser considerada injusta. Com base no princípio de 'mesmo salário para o mesmo trabalho', certamente seria possível agendar um horário no nosso tribunal de justiça do trabalho para reivindicar um 'salário justo'. Na parábola, porém, o procedimento não é considerado 'injusto', mesmo que o pareça em nosso entendimento. No entender soberano do proprietário da vinha, é um ato de justiça e bondade: todos puderam alimentar a si e sua família naquele dia."

MEISTER, Sabine. O sermão do monte e as bem-aventuranças: como compreender hoje. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 60.

24 de ago. de 2012

Conselhos a um jovem teólogo


por Clodivis Boff

"Teologizar é preciso..."

Antes de começar, quero que você esteja bem convencido da importância e mesmo da necessidade de estudar teologia. Teria aqui vontade de parafrasear a famosa frase de Pompeu e que se tornou em seguida o lema dos grandes navegantes: "Teologizar é preciso, viver não épreciso". Não quero dizer com isso que a vida é para a teologia (o contrário é que é verdade), mas apenas enfatizar que vale a pena gastar os dias a aprofundar o mistério de Deus, o que não deixa, aliás, de redundar em benefício próprio e de todo o povo.

É a muitos títulos que a teologia é necessária. Vejo pelo menos cinco instâncias diferentes que solicitam o estudo da teologia: a fé, o mundo, a vida, a época de hoje e a realidade social.

1. A pede teologia. É, em primeiro lugar, a própria fé que, por sua dinâmica interna, busca compreender o que crê. Todo "crente" verdadeiro é também, e a seu modo, um "teólogo". Pois, a teologia é precisamente "a fé que deseja entender", como a definiu magistralmente Sto. Anselmo. Sem o estudo, a fé facilmente cai na cegueira do irracionalismo e da superstição, ou na miopia da superficialidade e do sincretismo.

2. O mundo que existe pede teologia. A própria criação é um grito inarticulado por um Criador. A teologia nada mais faz senão recolher esse grito e articulá-Io racionalmente. E se você incluir na idéia de mundo o curso histórico, inclusive os eventos da Revelação, então a razão é interpelada no máximo de sua potência. Ela, que se interroga sobre tudo, não pode se esquivar de perguntas como: Que querem nos dizer os "enviados de Deus", especialmente Jesus de Nazaré?

3. A vida pede teologia. Nós, os viventes, buscamos inelutavelmente o sentido último e radical das coisas. Por que a existência, a dor, a culpa, a morte? Como responder adequadamente a essas questões fundamentais e perenes sem recorrer a alguma teologia?

4. Nossa época pede teologia. A cultura moderna é essencialmente reflexiva: não se contenta apenas com o recurso à tradição, mas pergunta sempre pelo porquê de tudo. Mesmo a chamada razão pós-moderna, embora prefira o "discurso fraco", ela também precisa ser submetida a discernimento. Mais: as questões atuais com que a fé se vê confrontada são tão complexas que exigem reflexão elaborada e rigorosa. Pense somente nas questões que põe hoje a economia (neoliberalismo, mercado, globalização, tecnologia, etc.); ou as que colocam as ciências modernas, como a biologia (c1onagem, inseminação e gestação humanas em meios artificiais), a cosmologia (origem e fim do cosmos, leis constitutivas do universo, a hipótese de outros mundos habitados, etc.), a ecologia e poderíamos continuar.

5. A realidade social em que vivemos pede teologia. Qual é a missão dos cristãos frente aos grandes desafios sociais de hoje? Para confrontar seriamente a fé com esses desafios é preciso botar a razão teológica para funcionar. Sobretudo nós, no Sul do mundo, queremos saber como a fé pode ser fermento de libertação para a massa de excluídos do sistema social. Agora, se você incluir na realidade social a cultura, então surgem outras perguntas, tipicamente teológicas, como: Que sinais de Deus estão presentes nessa ou naquela cultura? Como inculturar aí as linguagens e as práticas cristãs?

Os conselhos dados pelo Clodovis são muito bons. Para ler todo o texto, acesse: FAJE

23 de mai. de 2012

Ser "reformado" é a solução?

 Mesmo? Jurava que tinha sido Jesus... 
(imagem retirada da internet)

Devido a interminável onda de espiritualidade "estranha" que se tem experimentado no país, podemos observar o surgimento de muitos auto-proclamados neo-reformadores, que acreditam que a única alternativa ao que se vê frente as distúrbios de espiritualidade seja um retorno ás bases, ideologia e práxis da Reforma Protestante.

Tendo em vista se diferenciar daqueles, este novo grupo busca um retorno á espiritualidade da Reforma, aparentemente, sem mesmo ter uma visão histórica e crítica sobre o movimento que se rompeu no século XVI. Saber nomes e lemas não faz de nós conhecedores deste movimento. Isso pode ser dito da grande maioria dos neoreformadores.

O calvinismo surgiu como único escape norteador teológico (como se não houvesse dentre aqueles que são criticados, farelos de calvinismo na ideologia do somos filhos do Rei). Seus atuais paladinos tornaram-se representantes da ortodoxia correta. Os lemas da Reforma são decorados (Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria). Falecidos pregadores tornaram-se semideuses e suas pregações fielmente repetidas nos púlpitos. A Bíblia foi deificada devido a uma má interpretação do contexto do Sola Scriptura.

Acaso saberiam estes de que o movimento da Reforma tem seu lado obscuro, também? Que Lutero e Calvino consentiram no assassinato de muitas pessoas? Que muitos dos prosélitos da nova Fé ingressaram no protestantismo por imposição de seus monarcas, que por sua vez tinha interesses escusos ao abandonar a religião de Roma? Que, conforme bem observou Weber, o protestantismo forneceu as bases para um capitalismo cada vez mais voraz?

Acredito que ir para o outro extremo deste cabo-de-guerra não é uma resposta saudável á essa espiritualidade estranha que vemos por aqui. Nem mesmo idealizar a, tão ufanada, Igreja Primitiva seria uma resposta cristã. São contextos e culturas muito distantes do nosso e impossivelmente serão reproduzidos para que sejam implantados.

A melhor alternativa, talvez, seria um repensar da Fé á partir de nossos problemas e cultura. Na Bíblia o desenvolvimento da teologia se dá mediante dos problemas e necessidades do cotidiano, rumo a uma práxis que manifestam o caráter de Deus. Noé surge aquele que poderia recomeçar mediante uma sociedade má. Abraão é chamado para dar origem a uma nação que manifestasse a vontade de Deus. O pastor de ovelhas Moisés foi chamado mediante o clamor do povo escravizado. Amós larga a vida de homem do campo para se levantar como porta-vóz dos oprimidos. O que dizer de Paulo, que desenvolveu toda a sua reflexão teológica á partir do cotidiano de seus leitores e ouvintes?

Nossa prática de espiritualidade deve nascer á partir dos clamores e anseios do contexto o qual estamos inseridos. E não á partir dos problemas que Valdo, Wycliffe, Huss, Zwinglio, Lutero e Calvino encontraram em seus dias. Da Reforma, podemos usar de seu lema para podermos seguir adiante: Igreja reformada, sempre se reformando. Até mesmo da Reforma Protestante precisamos nos libertar, rumo à espiritualidade sempre reformada.

13 de abr. de 2012

Cuidado com mosquito, mas não esqueçam do camelo

por Enéas Alixandrino

Nos dias de Jesus era comum os mestres demonstrarem suas habilidades quando ensinavam. Com frequência usavam exageros grosseiros e comparações ridículas, como meio de manter atentos seus ouvintes. O humor e trocadilhos eram constantes, drama e comparações berrantes para atingir seus objetivos. 

Portanto, as parábolas que representam grande parte dos ensinos de Jesus são meios indiretos de ensinar, no qual uma linguagem pictórica era empregado para seus discípulos (talmid), muito diferente da forma de pensamento Ocidental, na qual se dar de forma abstrata e direta. 

Ora, certa vez Jesus criticou duramente a religiosidade dos fariseus, demonstrando absurdos em suas espiritualidade, pois negligenciavam questões centrais da fé, mas debatiam as minúcias da religiosidade como se o mundo inteiro dependesse disto. Jesus disse: "Coais um mosquito e engolis um camelo" ( Mt 23:24). Quando os ouvintes de Jesus ouviam sua comparação devem ter rindo e muito da imagem ao visualizarem os Fariseus tirando os mosquitos do dente, mas engolindo camelos inteiros.

A comparação é grosseira e ofensiva e também humorística - além de engenhosa. No idioma nativo de Jesus (aramaico), como muito bem observado por Burge: "a palavra para mosquito é 'galma', enquanto o termo para camelo é 'gamla'. Jesus afirmou: 'coias um galma e engolis um gamla'. A inversão de apenas duas letras deu ao dito forma aguda e pungência memorável".
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