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2 de jan. de 2014

Diário de um desigrejado: Final


No último dia 31 completei um ano de desigrejado. Foi um longo e duro ano sem ter uma comunidade fixa. Esporadicamente visitei algumas comunidades. Aproveitei para conhecer igrejas que há muito tinha interesse em conhecer. Conheci gente nova, profissões de fé distintas e pregadores diversos. Infelizmente muito do que vi, foi apenas "mais do mesmo". Parece que a epidemia que me fez um desigrejado infectou muitos outros lugares.

Visitei comunidades abastadas e comunidades menos favorecidas. A sensação de que o discurso religioso é ímpar, como que se tivessem combinado antes de abrir uma igreja, me deixou em muitos momentos desanimado de continuar procurando por um porto seguro. O pentecostalismo (neo e pós) é como cerveja e futebol em nosso país: uma preferência nacional. Sem querer generalizar, posso dizer que na esmagadora maioria dos lugares onde fui - parafraseando B. Manning -, o Deus apresentado era muito pequeno para mim. Uma caricatura distorcida do Cristo Bíblico.

Nestes lugares, não havia espaço para dúvidas. Duvidar é coisa de gente sem fé, poderiam dizer explicitamente. Suas Bíblias "inerrantes" e "infalíveis" me fizeram desligar de muitas pregações. Em alguns lugares havia um apelo para que os desigrejados se achegassem e ali encontrassem repouso. Porém, quando a Ceia era servida, aqueles que não pertenciam a uma comunidade de fé, não podiam celebrar a Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Não Ceei. Minha mãe chorou por eu não cear. Não me senti bem-vindo, tentei explicar. Não adiantou muito...

No dia 31, como sempre o fiz nos últimos anos, fui a uma destas comunidades que visitei (a escolha foi meramente pela proximidade de minha casa) e lá agradeci a Deus pelo ano e em oração entreguei meus sonhos do ano que iria começar em poucas horas. Na hora da Ceia, burlei o sistema de exclusão aos desigrejados e demais pecadores e ceei. Mas foi a última vez que fui ali. Em 2014 irei me fixar numa comunidade que escolhi junto á minha esposa. Com muitas expectativas vamos ajudar e ser ajudados.

Conclusão

O que posso concluir neste meu ano como um desigrejado é que foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Passei muitos anos dentro de uma igreja reclamando de erros e bizarrices. Do lado de fora ficou ainda mais fácil apontar meu dedão, uma vez que não havia vínculo sentimental com a maioria dos lugares. Contudo, Deus aquietou meu coração e hoje posso mais facilmente compreender e aceitar as diferentes maneiras de reflexão bíblica. Menos aquelas que aprisionem as pessoas e as domestique.

Neste ano desigrejado vi que minha fé em Deus é maior do que eu poderia imaginar. Minha fé amadureceu e caminhei um bocado e hoje consigo conviver melhor com as diferenças. Mas nem tudo foram flores. Por muitas dificuldades passei neste ano. Em muitos momentos cedi ao meio e quase esqueci com Quem estou comprometido em aliança eterna. Contudo, cheguei ao final do ano cristão, o que para muitos era algo difícil de predizer. Do "lado de fora", vi o que muito diziam sobre a igreja e, em sua companhia chorei e pedi perdão. Enquanto desigrajado, muitos se sentiam mais a vontade para conversar sobre os problemas que viam na igreja.

Particularmente, acho que todo cristão maduro deveria se desigrejar pelo menos uma vez na vida. Mas para isso, o cristão deve ser maduro o suficiente para não depender do ambiente eclesial para que sua fé se sustente. Não deve deixar de ser um estudante da Bíblia e outros livros. Deve manter sua prática de oração constante. E não deve fazê-lo sozinho. Minha esposa me ajudou quando fraquejei e acredito ter ajudado a ela também. Quando chegar o seu tempo, desigreje-se! Ouse ver do lado de fora e mate o impaciente que vive dentro de você e o faz um "reclamão"! =)

Aos que se preocuparam conosco, fica aqui nosso agradecimento. Suas orações muito contribuíram.

N'Ele, e em processo de igrejamento,

Felipe Costa.

7 de set. de 2013

Desigrejado em silêncio


O mais difícil de estar a mais de nove meses fora de uma igreja convencional, é a preocupação alheia: muitos me olham como um "desviado", "frio", "distante do primeiro amor", etc. Entendo, respeito e agradeço pela preocupação. Sei que muitos dos que se preocupam, apenas querem o meu bem. Contudo, não me tirem do meu precioso silêncio. 

Só eu sei o quanto tem sido bom este período. Minha alma está mais leve e minha relação com o Divino não tem hora, nem dia marcado. Fico até alguns poucos dias sem orar, coisa que não me permitia anteriormente, uma vez que me sentia com a obrigatoriedade de orar pelos que a mim se chegavam com problemas. Para mim chegou ao fim a mecanização religiosa.

Não digo quando, mas em breve as preocupações de vocês poderão encontrar paz, pois acredito que serei plantado em outro jardim. Contudo, jamais serei o mesmo. Agradeço a Deus por estar ao meu lado, em silêncio, respeitando o meu momento de introspecção e esvaziamento.

24 de jun. de 2013

Diário de um desigrejado: Lugar de desigrejado é nas ruas


Levei minhas orações às ruas

No último sábado fui na manifestação em Belo Horizonte. Meu anseio por um país melhor pode ser externado num cartaz que fiz, no meu caminhar e nas orações que fiz durante o trajeto. Havia muitos grupos pedindo por mudanças em diversas áreas, como na saúde, na educação, na política, na distribuição de renda, etc. Representei o grupo dos que esperam não por melhorias momentâneas, mas pela constância que há na vinda do reino de Deus, que é reino de Paz e Justiça e jamais uma teocracia.

Assim que cheguei em casa, minha vontade era escrever um enorme relato do que presenciei na rua, passando pela chegada á Praça Sete e percorrendo toda a avenida Antônio Carlos, descrevendo as muitas crianças que acompanhavam seus pais e os mais velhos que iam alegres por poder acompanhar seus netos num momento importante, e ainda o Corpo de Bombeiros distribuindo água aos manifestantes. Mas cheguei ferido demais pelo que vi, e além disso poderia deixar minhas emoções falarem por mim. Calei-me para pecar menos.

Passei boa parte do trajeto sem acompanhar os coros e as palavras de ordem que eram proferidas. Preferi observar e sentir o ambiente. Aproveitei para orar durante o percurso. Pedi pela paz, pela não violência dos manifestantes, pedi por mudança de mentalidade do povo, pelo fim do "jeitinho brasileiro" que ora serve como motivação para o bem, ora para o mal. Orei para que meus irmãos evangélicos e católicos se manifestassem em seus púlpitos e nas ruas. Orei para que outro Martin Luther King Jr. surgisse em nossos dias. Orei.

Dizem que éramos 60, 70, 90, 125 mil pessoas. Era muita gente. Gente que ao chegar a um ponto da cidade foi impedida de continuar sua caminhada. Gente que, em sua maioria, nada vandalizou, mas foi vandalizada. Gente que com suas crianças fugiram para os bairros á margem da avenida. Gente que estava longe da área de conflito e foi dispersa por bombas e pela cavalaria. Eu pacifista por opção, revoltado, conclui que não é difícil cogitar uma revolta armada ou agir de maneira descabida num momento desses. Ainda bem que o pensamento ficou para trás.

Vandalismo e o noticiário

Não devemos ser inocentes ao ponto de acreditar que a maioria das pessoas que estão nos manifestos do Brasil sabem o motivo de estar nas ruas. Em BH tinha venda de água, cerveja e refrigerante no trajeto, e somado ao pessoal que puxava o povo com bateria e apito, não é difícil de confundir a manifestação com uma micareta. Do mesmo modo, pessoas que querem mudanças, "custe o que custar", estavam entre nós. A verdade é que alguns foram para enfrentar a polícia e alguns outros foram enfurecidos por não poder circular em uma rua que ajudaram a construir com seus impostos e, assim, levados pela emoção, destruíram lojas e jogaram pedras contra a polícia.

A caminhada começou com a paz presente e terminou com a ausência dela. A maior parte da manifestação foi pacífica, mas os meios de comunicação em geral preferem dar ênfase não aos cartazes ou ao objeto das manifestações: os políticos. A mídia atrai seu público pelo bizarro, pelo que choca a população. Infelizmente as pessoas mudariam de canal caso soubessem que no outro canal está mostrando gente sangrando "ao vivo". Não culpo a mídia. Ela vende o que as pessoas querem. E elas querem o pior.

Enquanto o vandalismo fizer parte das manifestações, estaremos perdendo a oportunidade de que a mídia seja obrigada a mostrar a razão da manifestação, isto é, o caos da saúde e da educação, o imoralismo de ter políticos condenados pelo Supremo Tribunal Federal atuando livremente em cargos públicos, os gastos com estádios em detrimento a outras áreas de maior prioridade, a reforma política, tributária etc. Infelizmente estamos perdendo nosso espaço para uma minoria que saiu de casa para ser penetra na verdadeira festa do povo. Por hora, eu não quero acreditar que tenham "infiltrados" no meio dos cidadãos de bem. Por hora...

A participação cristã

Eles estavam lá também. Eu acho. Não como nas grandes "Marchas para Jesus", mas estavam. Passou por mim um rapaz segurando a Bíblia como se fosse um cartaz. Ouvi um grupo de meninas repetirem algumas vezes "misericórdia". Tenho o péssimo hábito de ligar as pessoas que repetem muito essa palavra ao movimento evangélico. Talvez seja por ter aprendido que o nosso "nossa senhora", é o "misericórdia".

Fiquei muito triste por não visto um grande grupo com bandeiras e mensagens cristãs contra a corrupção ("contra a corrupção", sem proselitismo por favor). Talvez seja um erro meu acreditar que um povo que em sua maioria foi ensinado a olhar para seus próprios problemas e achar que o problema dos outros é castigo/correção de Deus, estaria disposto dar o grito de Amós: "Eu quero justiça, um mar de justiça. Eu quero integridade, rios de integridade".

Na história da América Latina, muitos padres foram instrumentos de Deus para libertar o povo sul-americano contra a opressão dos colonizadores ultramarinos. Eles mobilizaram o povo a se levantar em nome de Deus contra a injustiça. E eles se levantaram. Precisamos que nossos líderes espirituais possam dar um passo adiante daqueles padres "rebeldes". Um levante pacífico, desarmado, em prol do bem comum. Afinal de contas, como disse o profeta boiadeiro e colhedor de sicômoros, "O leão rugiu — quem não está com medo? O Eterno falou — qual profeta consegue ficar quieto?" (Am 3:8).

O Gigante ainda dorme

Se antecipou quem disse que "o gigante acordou". Ele no máximo despertou para beber água, fazer um "xixizinho" e já caminha de volta para a cama. O povo que está nas ruas, faz volume a cada dia. Mas ainda não tem uma ideologia comum que oriente e organize o movimento. Como dizia um cartaz que li, "são tantos os pedidos que apenas um cartaz não dá para escrever tudo". Os religiosos presentes eram são contra o grupo dos que pediam pela liberação da maconha e os que são contra a cura gay. Os representantes da ala LGBT são contra os religiosos. Os representantes "das vadias" são contra ideias moralizantes de seus corpos. Alguns estava contra a PEC 37, mas a maioria nem sabe do que se trata. Os que pedem a saída da presidente e seu vice, não sabem que quem assume é o presidente do Senado que é  rejeitado de forma unânime. Sem um norteador qualquer direção serve. Até mesmo para trás...

Tive meu dia em Babel e foi deprimente. O "Gigante" já volta para a cama. Não hoje. Não enquanto durar o evento da Fifa. Mas ele já caminha para o leito para ficar, quem sabe, "deitado eternamente..." Deus queira que não.

É preciso que a população engrosse a fileira pacifista do protesto. Gente que possa liderar os que ainda não sabem o porquê de estarem nas ruas. Precisamos de reuniões norteadoras para que sejam delimitados os principais pedidos, aqueles que são mais urgentes. É difícil, eu sei. Ficamos tanto tempo suportando a dor do pequeno caroço que apareceu como uma mancha na pele, que agora queremos remover todo um câncer da nação. É preciso ir um passo de cada vez ou iremos tropeçar em nossas pernas que quase definharam no "leito esplêndido".

Esperança que fica

A esperança sempre está presente. É ela quem me diz que o amanhã será melhor do que o presente. Não que teremos maior quantidade ou maior volume de pessoas nos próximos protestos. A esperança me diz que serviremos de exemplo para a próxima geração. Espero que tomem por exemplo os pacifistas e não os exaltados. É o que eu acredito: os manifestantes pacíficos mostraram que podemos sim ir às ruas.

Exemplo disso é o cartaz de uma garotinha, que deveria ter seis ou sete anos, que dizia mais ou menos isso: "A mamãe me ensinou que devo cuidar bem do meu país". Ler aquilo foi como ler um tipo de "perfeito louvor".

7 de jun. de 2013

Diário de um desigrejado: Vigésima terceira semana


Parti. Um tanto influenciado por muitas outras partidas, parti. Dividi. Não fui o primeiro a fazê-lo, mas cirurgicamente dividi com o cuidado de não deixar nenhum ferido em algum dos lados. Desafiei. Como um adolescente, um tanto pueril talvez, desafiei o sistema existente no "meio" e em mim. Cresci. Ainda é cedo para dizer, mas já não sou o mesmo de antes: eu cresci.

Alguns crescimentos são bons e outros ruins. O bebê que cresce no ventre da mãe que ansiosa espera pelo primeiro choro da criança é um bom crescimento. O câncer que cresce e se espalha pelo corpo é um crescimento ruim. Mas todos precisamos crescer. O crescimento é um sinal de que estamos vivos.

Escrever já foi mais fácil. Digito cada palavra com esforço homérico para que haja inspiração para uma próxima palavra e a cada nova linha vou sendo aquecido por Aquele que é a fonte de toda a inspiração humana. Nestes meses decorrentes ao meu desigrejamento tenho tido vontade de escrever reflexões das mais variadas. Minha habitual prepotência faz ecoar dentro de minha cabeça a ideia de que um dia eu poderia ser um bom escritor. Devaneio de devaneios.

A verdade é que antes tinha mais o que escrever. Minha pena era áspera e minha tinta não reluzia cores atraentes. "Era ou é?" Eu não saberia dizer... Tenho oito rascunhos pela metade arquivados no Blogger e nem sei se algum dia ganharão vida. Eles fazem parte de outra época. De uma época a qual tenho saudades e saudade nenhuma. Meus bons meninos e meninas cresceram e eu não estava lá. Mas pelo menos também não estava lá para ter mais material para minha áspera pena. O crescimento cobra seu preço.

Parti, dividi, desafiei e cresci. Parti, pois me considerava um remédio que não surtia mais efeito e poderia acabar trazendo efeitos colaterais não previstos. Dividi, pois eu sabia que se junto estivesse não deixaria que tomassem o seu próprio caminho. Desafiei, porque não acredito que certas práticas promovam o reino de Deus. Sim, eu cresci. Cresci e não vou mais partir, dividir ou desafiar novamente. Onde pousar estarei unindo e juntando os cacos quebrados. Desafiarei a mim mesmo a permanecer num lugar onde Pedro's e Paulo's possam ser diferentes e juntos cearem. Não importa quão grande sejam as diferenças.

Escrever esse diário é libertador. Escrever é expurga os demônios de quem escreve. Quem escreve abre a porta da alma á quem se dispõe a ler. Escrever é dar vida ás ideias de uma mente nem sempre sã. Escrever foi o meio que um povo decidiu contar sua história com o seu Criador. Escrever é o meio pelo qual este menino que vai crescendo aos poucos, a contar sua história com o seu Criador.

6 de abr. de 2013

Diário de um desigrejado: Décima sétima semana


"Quem sou eu?"

Apesar ter passado pouco mais de três meses desde que desliguei-me de uma comunidade de fé, tenho percebido em minha própria vida uma série de mudanças. Algumas positivas e, infelizmente, outras negativas. Compartilho hoje sobre algumas percepções de um recém desigrejado. Vou comentar sobre alguns perigos os quais enfrento dia após dia.

Embora meu "desigrejamento" não tenha sido algo totalmente planejado, jamais pensei que pudesse enfrentar uma crise de identidade. Sim, em alguns há no afastamento eclesial uma perda de identidade que pode trazer sérios desvios anteriormente não concebíveis. Tenho passado por situações as quais tinha algum domínio sobre elas e, a meu ver, facilidade para lhe dar com determinados problemas. Paro. Penso. Chego a seguinte conclusão: "Já não sou o mesmo. E não gostei desse 'novo eu'."

A primeira atitude que tomei com enorme facilidade enquanto desigrejado foi negar minha antiga identidade. Como um adolescente, andei por alguns caminhos de forma um tanto pueril propositalmente. Tudo o que fazia era como se estivesse tentando me afirmar enquanto desigrejado. Era como se para dizer para mim e para o mundo que eu era diferente do que critiquei e, de certo modo, deixei para trás. Negar a antiga identidade foi o primeiro ato.

Ao negar a antiga identidade percebi que á miúde ela dando lugar a uma nova identidade, um tanto radical. Uma identidade que não era minha. Identidade que era embasada em modelos de cristãos desigrejados que agiam de forma radical para caminharem á passos largos para longe daquilo que foi um dia. Esses tomam a via radical do "desigrejamento" por, talvez, terem sofrido abusos os quais querem a maior distancia física, ética, moral e cronológica. Fazer coisas que antes era "pecado" torna-se um desafio, uma aventura.

O silêncio o qual me propus, foi sendo preenchido por outros sons que destoavam da calmaria da reflexão que o silêncio trás. A perda do silêncio aconteceu-me meio as muitas propostas de barulho. É muito fácil dizer que "está em período de reflexão", quando na verdade qualquer coisa que ocupe a mente é mais interessante do que o momento de reflexão. Não era isso que eu tinha em mente!

Recentemente cheguei a conclusão de que preciso saber todos os dias quem eu sou. "Quem sou eu?", pergunto-me quando me levanto e quando me deito. Esta pergunta tem me mantido acordado e me ajudado a lembrar-me de minha verdadeira identidade. A identidade que tenho no Altíssimo, que foi conquistada por um alto preço.

"Quem sou eu?"

Meu nome é Felipe. Sou casado com a Flávia a oito anos. Sou uma pessoa que decidiu caminhar ao lado de Deus após uma longa vida de tropeços. Aprendi a amar a Deus e só disse que O amava quando verdadeiramente senti isso em meu coração. Decido a servir ao Senhor e as pessoas, fui chamado em minh'alma para fazer seminário teológico. Impelido pelo Espírito fui pastor de jovens por três maravilhosos anos os quais com muita dificuldade e alegria, fui agraciado pela presença de amorosos irmãos na fé. Intrigado pelo modo como o sistema eclesiástico girava a roda de seu moinho, decidi não ser mais vento naquela roda. Eu sou Felipe e espero que o Sol volte a brilhar novamente na Igreja brasileira com ou sem a minha ajuda. Amém.

22 de mar. de 2013

Quarta-décima quarta semanas


Sim, continuo desigrejado. Por que não falo mais sobre isso? Simples. O silêncio é o melhor remédio para quem está vivendo esta fase da Fé. Mas que não se confunda o silêncio que leva á reflexão com apatia. O segundo só leva ao distanciamento do Deus da Fé.

Tenho feito muitas coisas que antes não dava para fazer. Coisas simples, como fazer viagens curtas ou ir à casa dos meus pais no domingo na "hora do culto". Tenho ainda saído para jantar com amigos ou apenas com minha esposa. E tem sido bom. Se há algo da qual não sinto falta alguma é da obrigação de estar no culto. Sinceramente muitas vezes fui "obrigado" a não faltar para que as pessoas não me tomassem como um mau exemplo. Para alguns faltar ao culto é quase um crime. Como chegamos á isso? 

É lamentável que tenham preenchido a semana do cristão evangélico com tantas atividades distribuídas em eventos, congressos e reuniões infindáveis. Não acho que estas atividades sejam ruins, mas penso que seja ruim a quantidade massiva de vezes em que a Máquina Ministerial impõe aos membros de estarem em seus eventos. Não deveria ser assim. As reuniões de culto deveriam não ser prolongadas e tão pouco repetidas durante toda a semana. Se o cristão é o sal do mundo, ele é o único sal que permanece no saleiro por imposição das mãos que seguram o saleiro.

Tenho observado que por não haver um compromisso fixo, como o culto dominical, por exemplo, a semana parece ter pouco sentido. É muito fácil ter os dias e as horas preenchidas com atividades de trabalho, estudo e lazer. É como uma criança que não estimulada á leitura, prefere assistir TV a ler um bom livro. A TV já trás tudo mastigado. Não se precisa pensar e construir o mundo sugerido pelos livros. Os sons não precisam ser buscados na memória. Basta sentar-se e deixar ser levado. De igual modo o cristão, quando desigrejado, pode se assentar á margem da vida e apenas observar a vida passar diante dele. Mas é sempre assim? Acredito que não.

O que dá sentido a nossa vida não é o que fazemos e sim o que somos. As coisas que fazemos são feitas dentro de um espaço temporal e não podem ser mais do que servas de nosso ser. O que fazemos devem construir nossa consciência e história. Essas coisas devem ainda moldar a pessoa que somos. Ir a um culto é algo que fazemos para Deus, para o outro e para nós. Para Deus e por Deus servimos ao outro. E neste serviço ganhamos em vivência e em satisfação da alma. Cada coisa que fazemos neste mundo é um tijolo que constrói a ponte que leva-nos ao nosso "eu" melhor.

Por mais que seja estranha a sensação de não ter o compromisso fixo, posso - e devo! - continuar o meu culto pessoal a Deus. O que fazia na comunidade de fé é possível de ser feito fora dela. "Cultuar" é "servir". E serviço "a" Deus. Logo, tenho buscado servir a Deus em cada coisa que tenho feito. Este é o modo o qual tenho cultuado.

Mas tenho sentido muita falta do calor da comunidade, aquela sensação gostosa de ver os rostos conhecidos onde somos orientados por um líder bem intencionado. Sempre pensei que a práxis fosse mais relevante do que os momentos de devoção. Tornei-me um cristão pragmático, eu reconheço. E isso é perigoso. Perigoso, pois é uma ilusão pensar que Deus espera de mim mais do que eu possa esperar dEle. Ou seja, não é o que eu faço por Ele que conta na construção do meu "eu" e sim o que Ele faz por/em mim. O excesso de "serviço" leva a um pragmatismo que engole pastores, dizimando famílias de pastores. "Culto/serviço", sem momentos de devocional é como uma cadeira com uma perna menor do que a outra. 

 Acho que o melhor de estar desigrejado é o desintoxicamento de ideias, coisa que antes eu não conseguia fazer. É uma renovação da mente, estando longe do que me fazia chorar de angústia, algumas vezes. Espero que no meu desigrejamento eu possa olhar para tudo o que me formou até hoje e repensar as coisas que fiz e conseguir ser alguém melhor. Tenho pensado muito nos meu erros pastorais e nos erros teológicos que cometi. Gostaria voltar atrás e apagá-los. Mas prefiro acreditar que eles também são tijolos da ponte que vai me construindo.

Não sei quando escreverei novamente sobre meu desigrejamento. Até lá, ore por mim.

22 de jan. de 2013

Segunda-terceira semana


Minha esposa me pegou com o olhar distante e um tanto calado. Mas eu sempre respondi que estava tudo bem. Nesta semana que seguiu procurei fazer o que há muito não fazia, como escrever para o blog que é um tipo de filho para mim. E encontrei prazer nisso. No blog, pensamentos e inquietações estão sempre indo e vindo e quando parece que vão descansar, começa tudo novamente. E recomeçar é tudo que preciso.

Chegado o fim de semana, entrei pela primeira vez em uma igreja após me desligar da que anteriormente eu pertencia. Assim, foi no casamento de um amigo, que regressei regressei a uma igreja num sábado. Foi tudo muito bom e me felicitei por meu amigo. A leitura da Bíblia foi muito interessante e por alguns instantes pensei que poderia ser bom visitar mais vezes aquele lugar...

Embora alguém que tenha se identificado com minha história possa concluir, nunca pensei que um dia iria passar pela situação de estar desligado de uma comunidade. Desde os tempos da faculdade de Teologia, estar vinculado a uma comunidade é um princípio aprendido. A professora Regina Sanches insistia: "A Teologia é serva da Igreja. Se ela não serve a Igreja, ela não serve para nada". Nos anos anteriores eu mesmo aconselhei algumas pessoas que estavam desvinculadas de comunidades. E agora me encontro nesta situação.

Não vou mentir. Embora tenha considerado por diversas vezes a hipótese de ser um desigrejado, nunca me permiti fazer planos para que isso acontecesse. E ainda hoje penso assim: não "sou" um desigrejado; "estou" desigrejado. Isso não é uma realidade que pretendo perpetuar por muito tempo. Por "desigrejado", entendo que uma pessoa que mantém sua fé no Cristo, mas por algum motivo qualquer decidiu não pertencer a uma comunidade de fé, logo, é um desigrejado.

No domingo que seguiu, visitei outra comunidade que há muito gostaria de ter visitado. Diferentemente da experiência do sábado, desta vez foi um pouco estranho. As canções selecionadas pelo grupo eram bem diferentes, mas nem por isso ruins. Minha esposa e eu demoramos um pouco para entrar em sintonia com o espírito da comunidade. A leitura do texto foi também interessante. Contudo o lugar me lembra muito meu passado recente, em alguns aspectos. Mas pode ser que eu volte lá.

Neste ínterim, um dos meus irmãos da antiga comunidade me chamou em particular para perguntar a razão de nós termos saído daquela igreja. A única coisa que me veio a mente foi a imagem de uma árvore frondosa. Disse a meu amigo que as comunidades de fé são como uma árvore cheia de folhas. E nós somos as folhas que preenchem os galhos da árvore. Cada folha com sua importância e separada por galhos, as atividades exercidas, e com seu tempo. E que de tempo em tempo, as folhas precisam cair da árvore para dar lugar a novas folhas. Mas que cada uma precisaria cair a seu tempo e que se arrancada fora de tempo poderia matar a árvore. Ele disse ter compreendido e me pareceu ficar reconfortado. Agradeci por isso, pois não precisei dizer que algumas árvores precisam morrer...

Na semana seguinte fomos visitados por outros irmãos que um dia pertenceram a comunidade da qual fiz parte por dezesseis anos. A conversa estava boa e os olhos deles pareciam querer entrar no assunto de nossa saída da igreja, mas me adiantei e simplifiquei dizendo que eu precisava de um tempo para descansar. Em seguida me perguntaram por quanto tempo eu iria ficar longe da atividade pastoral e respondi que seria por mais ou menos um ano. Eles se espantaram e não concordaram com minha posição. "Você não pode ficar tanto tempo parado, cara". Pensei, "por que não?". Mas me calei.

Embora este não seja o caso de meus amigos, sei que em muitas comunidades as pessoas são medidas pelo que fazem e não pelo que são. Por muitas vezes recebi privilégios que não pedi pelo simples fato de exercer uma função que as pessoas enxergavam ser "mais elevada". Uma grande bobagem. Mais do que nunca, quero me "igrejar" novamente em uma comunidade e ter meu período de descanso sem ouvir lisonjas desnecessárias. No final de semana precisei trabalhar no domingo e não voltamos em lugar algum. Espero conseguir no outro fim de semana. Por hora esta é a canção que ecoa o sentimento da minh'alma:

"Tenho andado distraído / Impaciente e indeciso / E ainda estou confuso, / Só que agora é diferente / Sou tão tranquilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei / Quando o que eu mais queria / Era provar pra todo o mundo / Que eu não precisava / Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços / Pra você juntar / E queria sempre achar / Explicação pro que eu sentia. / Como um anjo caído / Fiz questão de esquecer / Que mentir pra si mesmo / É sempre a pior mentira / Mas não sou mais / Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por que. / Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê / E eu sei que você sabe, quase sem querer / Que eu vejo o mesmo que você." - Quase Sem Querer, Legião Urbana.

15 de jan. de 2013

Primeira semana


Desde o último dia do ano de 2012 eu me desliguei oficialmente da minha comunidade de fé. Os motivos que me levaram a isso são muitos e não é conveniente torná-los públicos. Não agora, pelo menos. O motivo que me leva a escrever depois de um longo hiato é a necessidade que sinto de narrar os fatos que se seguem desde que me desliguei da comunidade de fé onde exerci a função pastoral ao longo dos últimos três anos. Tentarei ser o mais lúcido o possível.

Medo. Senti muito medo. Ainda sinto. As incertezas que pairam sobre minha mente são maiores do que nunca. As certezas se foram junto com as esperanças. Estas últimas se foram quando vi que havia um sistema que cantava uma música diferente da que irmão mais velho cantou. E a cantava em alto som para que não se ouvissem outra canção. Eu era apenas uma voz. Contudo, não deixei de ouvir alguns sussurros em meio à multidão.

No primeiro dia do ano eu estava tranquilo e minha esposa contente. Ela carregou alguns fardos que quando tirados, muito lhe alegraram. Fiquei feliz por ela e por mim. Nos dias que seguiram tentei não pensar muito nos irmãos que deixei para trás e me concentrei em minha viagem á Monte Verde, onde comemoraríamos, com certo atraso, nosso aniversário de casamento.

Chegamos no sábado. A cidade continuava bela e aconchegante. Almoçamos e fomos para o hotel. À noite descemos para ir a um restaurante e comprar coisas gostosas. Lá sempre tem coisas gostosas. Entramos em uma loja para comprar uma camisa com o nome da cidade, como fizemos a oito anos atrás em nossa Lua de Mel. Comprar roupas sempre me deixa sufocando, então resolvi sentar em um banco do lado de fora e aguardar minha esposa escolher sua camiseta. Foi quando alguém passou e comentou com um comerciante:

- Está trabalhando até agora? É sábado e já é noite!

"É sábado e já é noite". Pela primeira vez em três anos eu estava longe das responsabilidades com os jovens da comunidade. E pela primeira vez no novo ano eu chorei. "Não precisava ser assim", me peguei afirmando. Os fardos que pesavam os nossos ombros jamais haviam sido as pessoas que cuidávamos. É sábado e eu lamentava pelos buracos e pedras que haviam no caminho. Sim, era sábado e já passavam das oito.

Dizem que verde é a cor da esperança. Em Monte Verde, eu ansiava que a minha esperança no sistema eclesial fosse restaurada. Que outras saídas não fossem necessárias. Que outros "Felipes" não chorassem em sua viagem de comemoração. Que outros jovens não perguntassem a razão de seus líderes não continuarem á frente do pastoreio. Que não houvesse mais gente machucada por gente que se diz "filho do Amor". Ah, como eu preciso de montes verdes de esperança! Por hora, só me resta elevar os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. Ele sempre vem.
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