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3 de dez. de 2015

Aproximações entre Brahman e Jesus


Dos deuses védicos o que mais se assemelha ao Deus cristão é, sem dúvidas, Brahman. Segundo os mais antigos Upanixades, ele é identificado como "o Um" neutro, o ser primeiro. Este ser é "impensável, ilimitado, eterno, o Um e o todo, 'Criador' e 'senhor' do mundo". Ele encerra em si todos os atos, desejos, odores e paladares. Os indianos acreditavam o "atman" que habitava em seus corações, ainda que fosse menor que um grão de cevada, menor que um grão de mostarda, ele seria maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que todos os mundos. "Abrangendo todos os atos, todos os desejos, ... abrangendo todo este mundo, ... isso é meu 'atman' no coração; isso é Brahman. Ao morrer, eu entrarei nele", acreditavam os indianos (Brhadaranyaka Up., III, 7, 3).

O "atman" representa a essência divina no homem. Segundo o Rig Veda, X, 90, Brahman habita o coração do homem, através do "atman", o que implica a identidade entre o verdadeiro "Eu" e o ser universal. No "post mortem", o "atman" se une ao Brahman no "mundo do relâmpago". Lá os que morreram encontram uma "pessoa espiritual" ("purusa manasah", isto é, "nascido do espírito"), e esta o conduz até os mundos de Brahman, onde viverão durante muito tempo e não retornarão mais. A união do "atman" com o ser universal (Brahman) constitui de alguma forma uma "imortalidade impessoal": o "Eu" confunde-se em sua fonte original, Brahman. "A luz que brilha além desse Céu, além de tudo, nos mais altos mundos além dos quais não há coisas mais altas, é na verdade a mesma luz que brilha no interior do homem" (Chandogya Up., III, 17, 7).

De modo semelhante o Deus dos hebreus, Javé, é identificado como "o Um" por seus seguidores (Dt 6.4). De igual modo, Javé é eterno, todo poderoso, completo, criador de todas as coisas e seu senhorio é testificado na Bíblia. A finalidade do mundo e os atos de Deus são lembrados por Paulo na carta aos romanos (11.36). Enquanto para os indianos o "atman" habitava no coração do homem, para o judeu era a "ruach" ("espírito"; "fôlego de vida") que habitava no homem. Ao morrer, o espírito do homem retorna para Deus (Ec 12.7). 

O cristianismo concebeu a ideia de que o Espírito Santo, o espírito de Deus, habita no homem (1 Co 6.19). Assim, Deus habita no homem através do Espírito. A promessa bíblica aos seus seguidores é que o Cristo, filho de Javé, irá conduzir os seus até o Pai  através do Espírito. Uma das tarefas do Espírito é aperfeiçoar o fiel até o dia em que ele encontrará o seu Criador (Fp 1.6), nesta vida ou após dela. No seu Deus, o cristão encontra a imortalidade. "Seremos semelhantes a ele", afirmou João (1 Jo 3.2). O cristão ("pequeno Cristo") é, então, uma pequena fração de seu Deus: de dentro do cristão brilha uma luz que não é sua, mas do próprio Deus.

Referências retiradas de: ELIADE, Mircea. "História das Crenças e das Ideias Religiosas" - Vol. I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro, Zahar, 2010, p. 231-233.

5 de nov. de 2015

Rastros do futuro


Por que me sinto assim, com saudades de um lugar o qual nunca fui e tão pouco sei onde é? De onde vem essa saudade inexplicável e que se mistura com sentimentos racionais e de pouca razão? Ó Senhor, o que é isso que enraizado em minha pele transpira a falta do que nunca tive desde meu primeiro choro?

Por que, diga-me ó Deus, por que meu umbigo coça uma coceira gostosa reclamando pelo cordão de minha mãe, que por sua vez, coça pelo de cordão de minha avó? Por que meus ouvidos levam lágrimas aos meus olhos quando sou invadido por um som que toca minha alma? Ou quando uma história me enche de esperança, sinto que estamos indo em direção ao saudoso Desconhecido? Explica-me por que a inocência das crianças faz-nos sorrir?

Ás vezes a saudade aperta tanto que choro sozinho, calado, um tanto amuado e com o coração apertadinho. Já tentei matar essa saudade no colo de mulher, no embebedar, no êxtase religioso, mas minh'alma continua insaciada. Responda-me, eu te peço, meu Criador. Não me deixe á deriva neste mar presenças e ausências. Sou apenas um barquinho á vela numa tarde de domingo sem vento.

Diga-me, eu insisto, de onde vem esses rastros impregnados em toda a sua criação e que dela vemos, ouvimos e somos tocados? Diga-me ó Cancioneiro se é você à tocar esta canção em meio a tantos que cantam? Foi você? Ah, Senhor... Deixou pedacinhos de pão jogados pelo caminho para que pudéssemos achar o caminho de volta para casa. Sim, eu sei que você deixou... Como me alegrarei quando meu espírito retornar para Aquele quem o soprou no primeiro de nós! Quantas saudades sinto deste futuro que nos aguarda!

30 de dez. de 2012

O Deus-Galinha e o deus-Águia


Havia um faraó que era conhecido por adorar ao deus-Águia, devido a crença de que este deus poderia lhe conceder vida renovável com o passar dos anos. O império deste faraó se estendia por uma longa região de montes altos e de esplendoroso horizonte, ao derredor da sede de seu governo. Como todo imperador o faraó Cabeça-de-Águia, como era conhecido, exercia seu poder concedido pelo deus-Águia para submeter os povos a servidão por meio do medo e vaidade. Muitos eram os escravos aprisionados ao longo dos anos de seu domínio sobre aquela região. Eles nada faziam para se libertar, pois temiam aquele temível faraó e seu estranho deus.

Conta-se que alguns dos povos escravizados se reuniram e bolaram um plano para fugir enquanto o faraó dormia. E assim foi: Os aprisionados se agruparam por tribo e fugiram em várias direções, evitando que quando o faraó Cabeça-de-Águia juntasse seu poderoso exército e fosse atrás de todos os fugitivos reunidos. Não se sabe o destino de todos os fugidos. Mas de uma tribo em particular, ouve-se histórias que foram contadas ao pé do ouvido, a Tribo dos Pintos.

A Tribo dos Pintos era uma tribo pequena e frágil. Este não é o verdadeiro nome da tribo, e isso também não sabemos. O nome dado á tribo surgiu ainda nos tempos de cativeiro quando as outras tribos mais fortes e maiores zombavam deles por serem frágeis e seguidores do Deus-Galinha. Esta divindade é um tanto curiosa. Segundo a antiga profecia, ela pretende juntar todos os Pintos debaixo de suas longas asas e lhes oferecer abrigo seguro.

Dizem que a Tribo dos Pintos não conseguiu fugir para muito longe da sede do império do faraó Cabeça-de-Águia. Mas, mesmo não tão longe, eles contavam com sua fama de frágeis, o que fez com que o faraó não fosse atrás deles com seu exército. Antes, enviava de tempos em tempos algum mensageiro ou general para lhes dizer que poderiam ser invadidos pelo seguidor do deus-Águia a qualquer momento. Contudo não cessava de zombar da pequena tribo que adorava ao Deus-Galinha, em seus irônicos discursos faraônicos dizendo que "os Pintos se mudaram para o Galinheiro".

Isso afetou diretamente a vida dos Pintos. Eles eram poucos para se defenderem e pareciam não acreditar que o Deus-Galinha poderia lhes ajudar. Alguns arrazoavam entre si, "como pode um deus que não voa e vive encurvado, nos ajudar?". Para estes, de pouca fé, era mais próprio que o deus-Águia os defendesse, por ser aquele que voa alto e de ser um caçador de outros animais, além de que, segundo a lenda, se renovava a juventude com o passar dos anos. Esse sim parecia ser um deus forte. Mas também existiam no meio dos Pintos aqueles que acreditam que o Deus-Galinha está sempre no chão, embora tivesse asas, para poder estar perto dos frágeis Pintos e que está sempre encurvado para melhor ouvir o clamor de seus seguidores. O céu não é interessante para o Deus-Galinha. O céu é sem graça para ele, sem seus amados Pintos.

O Deus-Galinha não parece ser o deus mais forte, ou sequer possui características de um campeão de batalha. Contudo, parece ser um deus interessado em seus seguidores, os frágeis Pintos. O deus-Águia passa a maior parte do tempo longe, no alto á voar, e seus adoradores precisam lhe fazer oferendas para que ele desça para comer de suas mãos. O Deus-Galinha por sua vez, sempre que encontra algum precioso alimento no chão, festeja com seus Pintos que sempre estão ao redor de suas patas. E basta cair o primeiro pingo d'água, e todos os seus Pintos encontram abrigo debaixo de suas asas.

Dizem que os Pintos são uma piada na sede do faraó Cabeça-de-Águia. Mas os Pintos deram um importante passo rumo a liberdade completa do domínio opressor do faraó. É uma daquelas vitórias que se disfarçam de derrota esperando a hora certa para festejar a liberdade. E a liberdade já brilha nos olhos dos pequenos Pintos. Em breve, muito em breve, eles verão a vitória do Deus-Galinha sobre o deus-Águia e, então, o simplório Galinheiro será tão nobre quanto o mais alto céu.

31 de jan. de 2012

Nome de Jesus entoado no Egito


Há quase um ano atrás postei aqui um comentário com algumas fotos de cristãos protegendo muçulmanos durante o momento de oração islâmica, em meio aos protestos para derrubar o ditador Hosni Mubarak. Visitando o blog do Hermes Fernandes me deparei com este lindo vídeo onde árabes, assírios e egípcios gritavam por quase dez minutos o nome de Jesus:



"E o SENHOR se dará a conhecer ao Egito, e os egípcios conhecerão ao SENHOR naquele dia, e o adorarão com sacrifícios e ofertas, e farão votos ao SENHOR, e os cumprirão. E ferirá o SENHOR ao Egito, ferirá e o curará; e converter-se-ão ao SENHOR, e mover-se-á às suas orações, e os curará; naquele dia haverá estrada do Egito até à Assíria, e os assírios virão ao Egito, e os egípcios irão à Assíria; e os egípcios servirão com os assírios. Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. Porque o SENHOR dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança." Is 19:21-25

30 de jan. de 2012

Jon Foreman - O $how tem que Parar! (Instead Of A Show)


"Odeio, desprezo as vossas festas, e as vossas reuniões solenes não me exalarão bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o barulho dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas. Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça como o ribeiro impetuoso." Amós 5:21-24

"Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra. De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido;  fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra." Isaías 1:10-19

"Só acaba quando não tiver mais platéia..." - Robson Madeira

27 de jan. de 2012

"A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram"


Um grupo de cristãos foi até a Parada do Orgulho Gay de Chicago com cartazes com os seguintes dizeres: "Desculpem-nos pela forma como a Igreja tratou vocês".

Que coisa linda de se ver em um país famoso por fazer protestos com, também, cartazes dizendo que "Deus odeia bichas" (God Hates Fags, Igreja Batista de Westboro).

Via Eliel Vieira.

19 de jan. de 2012

Desigrejar é preciso?


"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra,
e soprou em suas narinas um sopro de vida
 e o homem se tornou um ser vivente." Gn 2:7

Antes mesmo de ler Por que você no quer mais ir à Igreja?, já sabia que a Igreja estava doente. Ariovaldo Ramos em Nossa Igreja Brasileira, alertou sobre a estrada errada que havia pego a comunidade cristã brasileira. Ricardo Gondim fez o mesmo quado publicou os livros O Que Os Evangélicos (Não) Falam e É proibido.

Os professores da faculdade de Teologia, olhavam-nos com olhos assustados ao se depararem com turmas cada vez mais enraizados nesse terreno pedregoso, um lo-debar¹. Fui um aluno que questionava tudo o que era dito e por vezes questionei a reflexão dos professores com versos descontextualizados e ideologias aprendidas nas manhãs sábados pela TV. No momento em que a Bíblia precisou ser repensada, senti como se tivessem removendo um pedaço do meu corpo. Ainda hoje dói, mas sei que para crescerem novas folhas as velhas e murchas precisam ser podadas.

Ecclesia reformata et semper reformanda est² sugeria uma igreja viva que não ficasse presa as tradições tão severamente criticadas por Lutero em suas 95 Teses. Mas tudo que está vivo está sujeito a adoecer e até mesmo morrer. "Para morrer, basta estar vivo", já dizia um velho ditado. E a Igreja de hoje apresenta um quadro clínico lamentável. Temos adoradores e adoraDólares; pregadores e mercenários; pastores e lobos; cuidadores e ditadores; Evangelho e outros-Evangelhos; pecadores perdoados e sacrossantos; Deus e deuses. Tudo isso adorado no mesmo lugar. Lugar esse que chamamos de igreja.

Cresce em nossos dias o grupo de cristãos desigrejados. Estes seriam aqueles que não veem mais a reunião da comunidade em endereço fixo como algo necessário. Eles se reúnem em ambientes públicos ou em casas para compartilhar a leitura bíblica e estar em comunhão. Alguns dão suas ofertas para grupos filantrópicos, pessoas carentes ou utilizam em ações evangelísticas. Em alguns casos não possuem líderes, todos leem e ensinam.

Neste ano de 2011 eu passei por algumas experiências amargas em minha comunidade. Algumas vezes precisei engolir seco e chorar por dentro em silêncio. Presenciei um bom homem, servo de Deus, sofrer sanções de um líder ditador. Vi pessoas dormirem ao som de uma boa pregação e balburdiando ao som de palavras vazias e distantes de Deus. As pessoas adoram frases que lhes digam que são especiais e que irão conseguir o que querem, ainda que Deus nada lhes tenha prometido... Constatei que as reuniões que mais atraem pessoas são aquelas que em que o que é oferecido está em paralelo com a cultura Você Merece Ser Feliz. Acordei e encontrei uma Igreja inerte aos enfermos e famintos.
E [Jesus], quando ia chegando, vendo a cidade [de Jerusalém], chorou sobre ela. Lucas 19:41
As coisas não mudaram muito dos dias do pranto de Jesus para os nossos, não. A Igreja continua sendo motivo de pranto. Existem aqueles que vivem um caso de amor e ódio com ela. Pessoas que gostariam que as coisas fossem diferentes. Que gostariam que as coisas fossem cristãs. "O ideal cristão não foi testado e reprovado. Ele foi considerado difícil e por isso permaneceu sem ser experimentado", disse Chesterton. Muitos só tem referências ruins da igreja. E sinceramente, somos culpados.

Vou me desigrejar, cogitei durante meus momentos de reflexão. Estou pronto para isso? Não sei responder a essa pergunta. Não tenho pretensões luteranas á respeito da Igreja. Se quero ver as coisas mudarem? É claro! Mas não vou enfrentar o atual sistema religioso cristão de forma kamikaze. O mais certo é agir homeopaticamente. Até mesmo um remédio pode levar á morte quando não aplicado na medida certa.

Os desigrejados estão tentando construir o reino por fora. Os que conseguem, o fazem por dentro de uma igreja. Talvez você pense, como eu pensei um dia, que Deus está somente nas dimensões das quatro paredes erguidas com suor, lágrimas e um enorme montante de dízimos. Deus não mora na igreja. Assim como nós Ele vai na igreja. Extra ecclesiam nulla salus³, somente se ecclesiam for com e maiúsculo. Deus mora na Igreja, com i maiúsculo.

Igreja somos nós. Nós que andamos aos quatro cantos, como nas complicadas visões de Ezequiel. O livro de Atos nos diz que Deus não mora em construções feitas por mãos humanas. Paulo na primeira carta aos coríntios enfatiza que somos templos do Espírito Santo. Segundo a Bíblia, Deus esculpiu o primeiro homem do barro, com suas próprias mãos. Logo, biblicamente não há justificativa para dizer que o único lugar possível para ter comunhão com os irmãos seja na igreja construída por nós.

Aonde há um cristão, há culto á Deus. Se o cristão está dirigindo, está cultuando á Deus. Não importa o que seja: lavando o carro, fazendo comida, trabalhando, pintando, escrevendo, caminhando, dormindo, jogando futebol ou videogame, fazendo sexo com seu cônjuge, comendo, defecando, urinando, estudando, fazendo assistência social, navegando na internet, ou seja, qualquer coisa que um cristão sincero esteja fazendo, está na presença de Deus e deve agir de forma cultual.

Desigrejar é o caminho? Creio que não. Se você quer resolver um problema, não é fugindo dele que irá consegui-lo. Não funcionou com Jacó ou Moisés e certamente não irá funcionar conosco também. Talvez alguns de nós precisemos ir mais de leve, frequentando um pouco menos para que a poeira da tempestade de areia baixe e depois regresse para ajudar a quem precisar.

Conclusão: pertencer a uma agremiação cristã que se reúne em uma igreja de quatro paredes não faz de alguém um cristão. Tão pouco estar fora dela faz de uma pessoa um não-cristão. O fato é que estar dentro de uma igreja, por mais difícil que possa ser, pode ser a resposta de oração de alguém que está se achando sozinho em meio a tanta loucura. São os enfermos é quem precisam de ajuda e não os sãos, já dizia o Mestre.

Continuo na igreja, com i minúsculo, tendo certeza que todos pertencemos ao grande rebanho, da Igreja de Deus. Com i maiúsculo.

¹ - Lo-Debar é o nome da cidade bíblica onde ficou refugiado o filho de Jônatas, Mefibosete. "Lo-debar", significa "sem pasto; árido".
² - Lema da Reforma Protestante, que significa "Igreja Reformada está Sempre se Reformando".
³ - ‎Fora da igreja não há salvação,  termo cunhado por Cipriano de Cartago, no século III.

11 de jan. de 2012

Entrevista com Leonardo Boff



"Importante é saber, mas mais importante é nunca perder a capacidade de aprender."

Via Fabiano Junio.

28 de nov. de 2011

Os pequeninos de Jesus na Nigéria


A música Baba Yetu é do compositor americano Christopher Tin (2009), cantada na língua Swahili pelo Coral Gospel de Soweto. E a letra é a oração do Pai Nosso.

Fonte: Pavablog

4 de nov. de 2011

Jesus, o eschatos de Deus


Gostaria de propor uma visão escatológica. Desde já admito que ela não é de minha autoria e sim um apanhado de várias visões. Contudo digo que ela é bíblica e cristocêntrica, e isso já é o suficiente para começarmos. Vamos lá!

Escatologia vem do grego εσχατος (eschatos), isto é "último" somado ao sufixo λόγια (logia), "conhecimento". Logo, falar sobre escatologia é falar sobre “as coisas do fim” ou “últimas coisas”. Dizem que o segredo de um bom texto é guardar a resposta do mistério postulado no título para o fim, mas vou começar respondendo o título, pois creio ser de suma importância para estabelecimento de algumas bases.
“Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim, o primeiro e o último.” Ap 22:13
Jesus no apocalipse de João faz a seguinte afirmação: “sou o primeiro e o último”. A palavra grega usada para último neste verso é exatamente eschatos, ou seja, Jesus afirma ser o último, o fim, de todas as coisas.

Do alto do madeiro, Jesus gritou “Tetélestai” – "Está consumado". As palavras pronunciadas por Jesus na cruz foi de tamanho impacto no mundo que o Evangelho de Mateus relata que o véu do templo se rasga de alto a baixo, tremores sacudiram a terra, pedras racharam, sepulcros romperam-se, gente que havia morrido foi vista andando pela terra e um centurião que acompanhava o martírio de Cristo reconheceu que “verdadeiramente aquele era Filho de Deus” (Mt 27:51-54).

Sendo Jesus o eschatos de Deus, isto é o cumprimento das últimas coisas, devemos olhar para sua vida para sabermos como se dão todas essas coisas. Assim que Jesus foi batizado por João Batista viajou pelas cidades á convidar o povo ao arrependimento devido á chegada do reino dos céus. O chamado “ao arrependimento" é muito mais do que lamentar-se pelo pecado, é um chamado á mudança de mentalidade, que é o significado da palavra grega metanóia.

Jesus, o último, anuncia a chegada do reino. Em Jesus a escatologia é cumprida no reino. Mas o reino ainda não chegou por completo á terra. É o que propôs Oscar Cullmann: “Já e ainda não”. Jesus não apenas deixou um reino á ser implantado como também destinou boa parte de sua implantação ao encargo de seus seguidores (Lc 22:29). Somos cooperadores de Deus nesta tarefa e, graças a Deus, não estamos sozinhos (“e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” Mt 28:20).
“O reino de Deus é nada menos que o projeto de Deus para a história” - Wolfhart Pannenberg
O escritor N. T. Wright propõe que “o reino é a sobreposição dos céus sobre a terra”. É como as águas do mar que avançam sobre a areia da praia e vão a cada onda subindo um pouco mais. Não uma invasão bélica, mas uma sobreposição. Dia após dia. Á passos curtos, mas sempre “passos”.

E Deus confia que iremos levar este reino adiante. Paulo afirma que Deus “nos confiou a palavra de reconciliação” (1 Co 5:19). O livro de apocalipse diz que somos “reis e sacerdotes sobre a terra” (5:10). Sim, Deus conta confia em nós muito mais do que nós mesmos confiaríamos. Philip Yancey diz que Deus assumiu um enorme risco de contar conosco. Podemos fazer coro ao Yancey, dizendo que esta não é uma sábia escolha. Mas “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1 Co 1:25). Somos cooperadores, que não estão sozinhos, pois o Espírito habita em nós.


Se todos nós nos arrependermos, isto é, mudar a nossa mentalidade, conseguiremos ajudar Deus nesta empreitada maravilhosa. Mas o que esta exegese do reino tem haver  com “o fim”? Tudo.
"E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." Ap 21:1-4
O céu desce para a terra. A realidade de Deus entra na nossa realidade sobrepondo o que há de errado em nosso mundo, fazendo com que este mundo seja a cada dia mais parecido com o céu. Talvez você ainda tenha dúvidas de que ao implantarmos os ideais do reino, o céu adentra na terra. Mas pense em Paulo ao fim de sua carreira, quando ele escreve á Timóteo descrevendo que recebeu consolo de Deus na forma de uma visita de Tito. Paulo considerava que a Igreja era a própria presença de Deus. Suas lágrimas e dores, ainda que não da forma plena a qual um dia esta terra terá, já podiam ser enxugadas e curadas.

Vejamos a seguinte profecia de Isaías:
"Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo o vale será exaltado, e todo o monte e todo o outeiro será abatido;  e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará." Is 40:3-4
Esta profecia anuncia esta vinda do céu á terra. Na cosmovisão judaica, os vales eram onde as pessoas viviam e lá a presença de Deus era “menor”. Os montes por sua vez eram o local de maior proximidade com os céus, onde Deus habita. Daí os grandes eventos acontecerem nos montes (Abraão e o sacrifício de Isaque no monte; Moisés recebe a Lei no monte; Elias e o embate com os profetas de Baal no monte; O sermão do monte; A transfiguração no monte; A crucificação de Cristo no monte; etc). Ora, o próprio Deus eleva a realidade do vale e desce a realidade do céu para “que tudo se endireite”. O mesmo pode ser visto nas palavras de Jesus no diálogo com a mulher do poço de Sicar:
"Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. [...] Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade." Jo 4:21, 23
Os céus entram em nossa realidade dia após dia. Em cada atitude que seja semelhante a do Mestre o reino é implantado e sentimos a presença do Pai mais próxima de nós. Talvez você não esteja vendo isso acontecer, mas não se preocupe, pois: "O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós." Lc 17:20-21

O judeu compreendia que a Lei era o pacto de aliança que unia Deus e o povo. Nós cristãos nos unimos a Deus através do Filho que nos constrange á agir: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.” Tg 1:27 (religião em latim: religare, significando "religação com o divino"). Atualizando o verso, o que nos une á Deus é agirmos em prol do reino que vem sobre nós a cada dia.
 “Ir para o céu implica estar com Deus no lugar onde ele está. Assim, o céu não é apenas uma realidade futura, mas presente.” N. T. Wright
Para fazer “novo céu, e uma nova terra” (Ap 21:1), Deus não precisa destruir a terra já existente, como supõe alguns cristãos. Deus que fez a terra e viu que tudo era bom, zela por este lugar. Apocalipse diz que virá “o tempo de [Deus] destruíres os que destroem a terra.” (11:18). Engraçado, que afirmamos “sermos novas criaturas”, e que “somos nascidos novamente” mas ninguém fez isso de forma literal. Ou alguém voltou ao ventre de sua mãe literalmente? Por que Deus haveria de destruir sua criação para fazer uma nova? Por que não redimi-la?
“Se céu significa vida em outro mundo, então o nome da coisa não é redenção, é substituição.” Ed René Kivitz

Ainda que os cristãos não se movam pelo reino, Jesus já deu o ponta-pé inicial. É algo que não pode ser detido mais. Nem mesmo a inércia dos cristãos pode deter o avanço do reino. Deus, que já usou mulas para falar, usa hoje o que Karl Rahner chama de “cristãos anônimos” para o plantio do reino.

Sou fascinado pela “parábola dos dois filhos”, onde um diz que não irá fazer o que seu pai manda, mas se arrepende – metanóia, e acaba obedecendo. Em seguida um segundo filho lhe diz que irá obedecer, mas não o faz. Jesus encerra a parábola dizendo:
“Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer.” Mateus 21:31-32
Que cada um de nós descubra qual o seu papel no reino do Pai e movimente-se para que ele seja implantado hoje, amanhã e para sempre. E em oração clamemos pelo retorno daquele que há de completar a boa obra que em todos e em tudo começou (Fp 1:6). Que nossa oração seja uníssona: "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu". Que aqui seja, como o céu, em outras palavras.
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