Frases

2 de jan de 2014

Diário de um desigrejado: Final


No último dia 31 completei um ano de desigrejado. Foi um longo e duro ano sem ter uma comunidade fixa. Esporadicamente visitei algumas comunidades. Aproveitei para conhecer igrejas que há muito tinha interesse em conhecer. Conheci gente nova, profissões de fé distintas e pregadores diversos. Infelizmente muito do que vi, foi apenas "mais do mesmo". Parece que a epidemia que me fez um desigrejado infectou muitos outros lugares.

Visitei comunidades abastadas e comunidades menos favorecidas. A sensação de que o discurso religioso é ímpar, como que se tivessem combinado antes de abrir uma igreja, me deixou em muitos momentos desanimado de continuar procurando por um porto seguro. O pentecostalismo (neo e pós) é como cerveja e futebol em nosso país: uma preferência nacional. Sem querer generalizar, posso dizer que na esmagadora maioria dos lugares onde fui - parafraseando B. Manning -, o Deus apresentado era muito pequeno para mim. Uma caricatura distorcida do Cristo Bíblico.

Nestes lugares, não havia espaço para dúvidas. Duvidar é coisa de gente sem fé, poderiam dizer explicitamente. Suas Bíblias "inerrantes" e "infalíveis" me fizeram desligar de muitas pregações. Em alguns lugares havia um apelo para que os desigrejados se achegassem e ali encontrassem repouso. Porém, quando a Ceia era servida, aqueles que não pertenciam a uma comunidade de fé, não podiam celebrar a Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Não Ceei. Minha mãe chorou por eu não cear. Não me senti bem-vindo, tentei explicar. Não adiantou muito...

No dia 31, como sempre o fiz nos últimos anos, fui a uma destas comunidades que visitei (a escolha foi meramente pela proximidade de minha casa) e lá agradeci a Deus pelo ano e em oração entreguei meus sonhos do ano que iria começar em poucas horas. Na hora da Ceia, burlei o sistema de exclusão aos desigrejados e demais pecadores e ceei. Mas foi a última vez que fui ali. Em 2014 irei me fixar numa comunidade que escolhi junto á minha esposa. Com muitas expectativas vamos ajudar e ser ajudados.

O Blog

Este espaço acabou se tornando um deserto, ficando às moscas durante este ano. Pensei bastante e cheguei á conclusão de que o tempo do blog estava chegando ao fim. E chegou. O Blog cumpriu seu propósito e foi, pelo menos para mim, um lugar onde minhas ideias se tornavam livres de minha mente. O ciclo chegou ao fim e agradeço á tod@s que aqui me acompanharam, cresceram comigo e de mim tiveram raiva. Um grande beijo á tod@s!

Um novo projeto está vindo aí, com uma proposta mais light, onde quem sabe Deus poderá nos encher o coração Por Linhas Tortas!?

Conclusão

O que posso concluir neste meu ano como um desigrejado é que foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Passei muitos anos dentro de uma igreja reclamando de erros e bizarrices. Do lado de fora ficou ainda mais fácil apontar meu dedão, uma vez que não havia vínculo sentimental com a maioria dos lugares. Contudo, Deus aquietou meu coração e hoje posso mais facilmente compreender e aceitar as diferentes maneiras de reflexão bíblica. Menos aquelas que aprisionem as pessoas e as domestique.

Neste ano desigrejado vi que minha fé em Deus é maior do que eu poderia imaginar. Minha fé amadureceu e caminhei um bocado e hoje consigo conviver melhor com as diferenças. Mas nem tudo foram flores. Por muitas dificuldades passei neste ano. Em muitos momentos cedi ao meio e quase esqueci com Quem estou comprometido em aliança eterna. Contudo, cheguei ao final do ano cristão, o que para muitos era algo difícil de predizer. Do "lado de fora", vi o que muito diziam sobre a igreja e, em sua companhia chorei e pedi perdão. Enquanto desigrajado, muitos se sentiam mais a vontade para conversar sobre os problemas que viam na igreja.

Particularmente, acho que todo cristão maduro deveria se desigrejar pelo menos uma vez na vida. Mas para isso, o cristão deve ser maduro o suficiente para não depender do ambiente eclesial para que sua fé se sustente. Não deve deixar de ser um estudante da Bíblia e outros livros. Deve manter sua prática de oração constante. E não deve fazê-lo sozinho. Minha esposa me ajudou quando fraquejei e acredito ter ajudado a ela também. Quando chegar o seu tempo, desigreje-se! Ouse ver do lado de fora e mate o impaciente que vive dentro de você e o faz um "reclamão"! =)

Aos que se preocuparam conosco, fica aqui nosso agradecimento. Suas orações muito contribuíram.

N'Ele, e em processo de igrejamento,

Felipe Costa.

28 de out de 2013

O encontro de Davi, Absalão, El e Baal


Boa parte do Antigo Testamento dedica-se a relatar o conflito entre Deus, El - "Elohim" plural de "El", logo, "deuses" -, e Baal - "senhor". Suas representações estão nas narrativas da Criação onde Elohim decide criar a vida, na oferenda de Caim e Abel - Agricultura contra Pastoreio de animais -, em Elias e Jezabel, na eliminação de povos pagãos pós êxodo, etc. Contudo, um episódio do conflito nos chama a atenção devido sua maneira sutil de relatar a disputa entre os deuses. A história de Davi e seu filho Absalão.

Absalão assassinou seu irmão durante a celebração da festa da tosquia das ovelhas, o qual era anfitrião, na cidade de Baal-Hazor ("Côrte de Baal"), fugiu para a terra de sua mãe e lá ficou por três anos. Após seu retorno, Absalão traçou planos para substituir seu pai no trono de Israel e o pôs em prática. Aos poucos ganhou a aprovação do povo e mensageiros chegavam até o rei Davi para lhe anunciar que "o coração de cada um em Israel segue a Absalão". Davi sai com parte de sua casa real em uma viagem, porém deixou dez de suas esposas concubinas em casa. Instruído por Aitofel, Absalão vai até a casa, leva as concubinas de seu pai para o terraço da casa e debaixo de uma tenda faz sexo com as mulheres de seu pai para que toda a cidade veja. Mais adiante, Davi é obrigado a fugir para Maanaim e agrupando forças, volta para combater e vencer Absalão.

E onde entra Baal nesta história?

Baal é uma divindade cananeia que em determinado momento, junto a seus cúmplices, ataca El de surpresa em seu palácio no monte Sapân e conseguem amarrá-lo e feri-lo. Segundo Mircea Eliade, El teria sido castrado por Baal e, assim, nunca mais poderia ser "soberano". A genitália masculina tinha significado importantíssimo nas relações sociais e religiosas do Oriente antigo. No Antigo Testamento, a marca da circuncisão no órgão masculino designa a nacionalidade e comprometimento com Deus. Baal não somente castra El, como também rouba-lhe a mulher e seu trono sobre o monte Sapân. El é obrigado a refugiar-se nos confins do mundo. Yam vai em socorro á El e vence Baal expulsando-o do monte Sapân¹.

No relato do conflito familiar na casa de Davi, podemos ouvir ecos do um conflito entre dois deuses do panteão cananeu, cujo nome do deus El é incorporado na religião dos israelitas - Elohim. A revolta de Absalão trouxe á memória do povo de Jerusalém, que nunca foi monoteísta, o conflito dos deuses. O ato de subir no terraço faz paralelo ao subir ao monte, que por sua vez indica o "lugar mais próximo do céus". Absalão, assim como Baal, toma mulheres de seu pai. Embora não corte a genitália de seu pai, rouba-lhe a soberania ao usurpar-lhe o trono. A afronta de Absalão é contra o reino, contra seu pai e contra o próprio Deus. O povo vislumbra a epopeia de Absalão tendo como pano de fundo a batalha entre Baal e El.

¹ - ELIADE, Mircea. "História das crenças e das ideias religiosas I": da idade da pedra aos mistérios de Elêusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 153-155.

7 de set de 2013

Desigrejado em silêncio


O mais difícil de estar a mais de nove meses fora de uma igreja convencional, é a preocupação alheia: muitos me olham como um "desviado", "frio", "distante do primeiro amor", etc. Entendo, respeito e agradeço pela preocupação. Sei que muitos dos que se preocupam, apenas querem o meu bem. Contudo, não me tirem do meu precioso silêncio. 

Só eu sei o quanto tem sido bom este período. Minha alma está mais leve e minha relação com o Divino não tem hora, nem dia marcado. Fico até alguns poucos dias sem orar, coisa que não me permitia anteriormente, uma vez que me sentia com a obrigatoriedade de orar pelos que a mim se chegavam com problemas. Para mim chegou ao fim a mecanização religiosa.

Não digo quando, mas em breve as preocupações de vocês poderão encontrar paz, pois acredito que serei plantado em outro jardim. Contudo, jamais serei o mesmo. Agradeço a Deus por estar ao meu lado, em silêncio, respeitando o meu momento de introspecção e esvaziamento.

1 de ago de 2013

Mostre-me suas feridas e direi quem tu és


Assista ao seguinte vídeo abaixo antes de ler:


Desde que o mundo é mundo os grupos sociais tendem a separar os membros mais fracos, aqueles que tendem a trazer quaisquer tipos de perigos aos demais membros. Os animais doentes pouco a pouco são abandonados pela manada. O boi velho, ou adoentado, é posto para passar primeiro no rio para que as piranhas se concentrem nele e a boiada possa passar sã e salva. Pessoas com doenças que anteriormente não tinham cura, como a lepra, são deixados á margem da sociedade. Pessoas que cometiam algum tipo de pecado, como na Idade Média, eram afastados das cidades e proibidos de manterem contato com seus semelhantes.

Em nossos dias também impera a ideologia de que os danosos devem ser afastados dos grupos sociais. Socialistas dizem que Hitler e seu Nacional Socialismo, Nazismo, assim como Mao Tse-tung, não fazem parte do verdadeiro socialismo marxista. Os muçulmanos dizem que extremistas, os terroristas, não representam a essência do Islam, que etimologicamente deriva da palavra árabe Salam, que significa paz. Ateus insistem que os grupos neo-ateístas não fazerem parte de seu grupo. E nós cristãos costumamos também afirmar que um ou outro grupos (ou seriam vários?) nãos fazem parte do verdadeiro cristianismo bíblico (esse último adjetivo é o mais presunçoso o possível).

Na verdade, o que evitamos é o que está  por detrás de nossas debilidades, isto é, que somos todos parte de um único organismo interdependente. Morremos de medo de ser dependentes do outro. A dependência do outro é uma ponte que conecta cada indivíduo, criaturas de Deus. Nossas debilidades, erros, pecados, fraquezas, etc., deveriam nos aproximar e não nos afastar como sempre acontece. Até mesmo aquilo que temos por desvio serve como fator caracterizante dos grupos sociais. "Mas o que isso tem a ver com Silas Malafaia?" Tudo.

Este homem, o qual eu já investi (perdi?) um bom tempo criticando e xingando algumas vezes, caracteriza o movimento cristão. Sim. Ele não é o primeiro e, infelizmente, não será o último a destoar do que acreditamos ser "o cristianismo verdadeiro". Pessoas que agem como o pastor carioca, no vídeo acima, caracterizam o Corpo de Cristo. Este corpo possui feridas e suas vergonhas foram expostas num alto madeiro, como se no alto do monte já não fosse vexatório o bastante. Homens como este senhor, nos ensinam que nosso movimento, o Cristianismo, deve abrir mão da soberba de pensar que somos superiores aos grupos de outros movimentos. Servem ainda para nos mostrar que o Corpo é Santo, mas as feridas e vergonhas expostas fazem parte de nossa história. Ou você não tem do que se envergonhar?

Falamos aos quatro ventos que somos cristãos, pequenos Cristos, e não agimos como o Cristo. No livro de João é registrado que Jesus ao aparecer para os discípulos, após ressuscitar, vai até o incrédulo Tomé e aponta suas feridas abertas como prova de que era Ele. Jesus poderia ter feito um copinho de vinho a partir de um copo d'água, poderia curar a dor nas costas de alguém que possa ter dormido mal, poderia multiplicar o pão da casa, ou poderia contar uma parábola quem sabe, mas o Cristo preferiu apontar para suas chagas para mostrar a sua identidade. Ele não aparecer envolto em ataduras, escondendo seus ferimentos, como costumamos fazer ocultando nossas falhas e dizendo coisas como "Silas Malafaia não é cristão". Nossa postura diante de casos "assim", deveria ser: "Olha, nós temos o Malafaia, o Feliciano e muitos outros assim. Contudo, também temos o Luther King, a Madre Tereza... Somos um grupo que erra feio, mas também acerta. E o melhor disso é que Deus ama a cada um de nós. Mesmo que sejamos assim." Mas se você não consegue, não se preocupe. Eu também ainda estou tentando.

P.S.: Em outras palavras, existem exemplos como o Malafaia em todos os grupos sociais. Sua existência não deve constranger os demias membros. Seus atos devem servir como incentivo para caminharmos pelo caminho que melhor representa o ideal de nosso grupo, no nosso caso o Cristianismo. É muito cômodo dizer que ele, o Malafaia, não é cristão ou que não nos representa. Contudo, se cada vez que nos desviarmos do cerne daquilo que acreditamos formos "colocados para fora" pelos demais membros, em breve o grupo ficará vazio. Como disse Jesus, que atire a primeira pedra aquele que nunca envergonhou o Evangelho. Parafraseando Paulo, é na fraqueza de sua comunidade que Deus se faz forte.

29 de jun de 2013

Já temos o legado da copa: o movimento de indignação das ruas!

Professor Adilson Schultz 
Teólogo e Sociólogo

Parabéns, estudantes!
Parabéns a você que terminou o semestre de estudos e está indignado! Obrigado a você, estudante, que tem se juntado às milhares de pessoas nas ruas para manifestar a indignação. Preste atenção nessa palavra que repeti: indignação. É a que melhor me ocorre para descrever o que está acontecendo nas ruas. O objetivo das manifestações até que pode estar disperso, sem liderança, diluído entre tantas demandas, mas a motivação das pessoas é comum a todas elas, bem fácil de ver: a indignação! E isso não é pouca coisa, pois indignação é a alma do movimento; se podemos identificar a alma de alguém ou alguma coisa, é por aí que podemos entendê-la..
Pedagogia da indignação
O pensador e educador Paulo Freire tem um livro com esse título: Pedagogia da indignação. Que belo par esse título faz com seus outros livros de Pedagogia... do oprimido, da esperança, da autonomia, da indignação... O livro traz, entre outros estudos, as últimas duas páginas escritas pelo renomado professor, poucos dias antes de sua morte, em 22.04.97, onde ele mostra toda sua indignação frente à morte do líder indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos, que foi queimado vivo por 5 jovens, em 20.04.1997, enquanto dormia num ponto de ônibus em Brasília. Paulo Freire se diz indignado com a educação precária dos estudantes assassinos, tanto a formal-escolar nada crítica quanto a doméstica-familiar nada ética. Veja um trecho da carta, e tente pensar também nesse momento tão especial de indignação que estamos vivendo:
"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção [a educação libertadora]. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e o que fazemos. Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros..." (Paulo Freire, Pedagogia da indignação)
A alma do movimento: a busca de uma nova humanidade
Isso significa que o mais importante das manifestações de rua que estamos vendo agora não é a luta contra a corrupção, os gastos excessivos com os estádios, a melhoria na saúde, na educação, no transporte, as pecs, ... isso tudo é só a casca; a alma do movimento, sua matéria vertente, é a indignação. Indignação contra o quê? Contra o governo, certamente; contra os palácios, contra os partidos, contra a corrupção, contra os empresários, contra as concessionárias de carros importados... Mas isso tudo também é só a casca, porque o protesto é sobretudo contra um modo de vida, um jeito de ser e viver. Suspeito que o que os estudantes buscam é um modo radical e autêntico de humanidade, mais responsável, mais participativa. Ou seja: no próprio gesto está a principal reivindicação. Em outras palavras: os estudantes cansaram dessa vida besta! Como sugere Paulo freire, busca-se um jeito de democratizar e humanizar a vida. É um movimento de gente que uma vida mais interessante, mais responsável, e não só mais justa. Mesmo que o movimento não dê em nada, ele já venceu.
A dissidência revela o que há de melhor em nós
Nessa busca de humanização está o encanto das manifestações. Sempre que vemos um grupo de estudantes caminhando nas ruas juntos, ficamos animados porque ele revela o que há ou poderia haver de melhor em nós mesmos. As dissidências de todo tipo sempre encantam e atraem nossos sentidos pelo que elas contém de reserva de autenticidade, de essência. Dissidências radicais, autênticas, são sempre totalizantes; tem capacidade para nos falar de tudo. A luta do movimento social, os gestos de rompimento dos jovens, as críticas intelectuais aos modelos antigos de pensamento, carregam sempre um apelo à essência, um ensaio de um processo de essencialização do ser humano. O movimento dissidente é fascinante porque guarda-preserva-defende o original, aquela força autônoma estruturante que dá origem a todos os modos de existência. É por aí que já estamos fisgados, porque o protesto dos jovens na rua diz o que somos e, a um só tempo, anuncia o que poderíamos ter e ser. Assim, a nossa adesão aos protestantes revela uma constante antropológica, a busca de toda pessoa para escapar do risco sempre tão presente de viver uma vida alienante e sem graça, e buscar, em contrapartida, constituir uma vida que faça sentido, que seja livre além de justa, explorando a potencialidade de realização humana o tempo todo e em todo lugar, mesmo naquelas vidas mais reprimidas e incompletas.
A reivindicação local precisa falar do universal
Há mais uma coisa, o fato dessa avalanche de manifestações terem eclodido a partir de uma luta bem específica, o Movimento Passe Livre e os famosos vinte centavos. Esse fato carrega um rico elemento pedagógico: qualquer organização ou movimento social bem sucedido, por mais específico e regionalizado que seja, sempre carrega em si grandes reivindicações, sempre mais globais que locais. Essa é a magia de todo movimento social organizado, seja uma greve por melhores salários, seja uma ONG, seja um partido político, ou mesmo uma igreja: estão ensaiando uma nova humanidade! Ele nunca é só local, mas sempre universal. Aí está sua autenticidade; por isso prosperam! O movimento das ruas que vemos é radical, pois quer não só outro mundo para si, mas também para todo mundo, para a humanidade toda.
Sociedade de conflito
O movimento das ruas fascina também porque expõe o conflito social, e daí fazer surgir o confronto de ideias, e assim criar um ambiente mais seguro e emancipatório para ser. É como se os cartazes dissessem em uníssono: não está tudo em paz como se imagina! É como se o movimento fornecesse a todas as pessoas, mesmo a quem não está nas ruas, uma denúncia, e logo uma perspectiva de mudança, de futuro. Esse foi o mérito de nossos movimentos de dissidência mais recentes - 1970 e a Luta armada, 1985 e o Diretas já, 1992 e o Fora-Collor, 2003 e o Lula-lá, 2013 e os jovens nas ruas: há um conflito escondido; há uma coisa errada acontecendo, e ocupar o espaço público mostra isso pra todo mundo. A dissidência sempre será um protesto contra certo ocultamento-adestramento a que determinado processo ou situação está submetido; um protesto contra essa insistência em ocultar o conflito social. Não é isso que estamos vendo nas ruas, um protesto genuíno contra um adestramento que a ordem e o progresso nos imprime?
O movimento é um protesto contra a sociedade
Finalmente, outra lição do movimento é fazer surgir um novo tipo de pessoa, marcado pela cidadania: o apelo coletivo da passagem mais barata de agora – poderia ser também a greve de professores/as, ou a rebelião em presídios - sugere para todos uma reorganização baseada na coletividade, e não mais no direito pessoal. De repente, cada pessoa deixa de ser apenas indivíduo de direito e deveres e passa a ser artífice de um novo tipo de organização social, agente social que quer uma sociedade mais justa. O sujeito não é mais um indivíduo isolado, mas uma força social, que pode mudar a história. O movimento mexerá com a consciência individual e coletiva, mostrando que a nova organização da sociedade mantém um reciprocidade inescapável com um novo tipo de pessoa. Promover a dissidência, nesse sentido, é promover a constituição de sujeitos autônomos. Quem participa de movimentos reivindicatórios descobre que a experiência da coletivização das demandas mexe com a percepção que o sujeito tem de si e dos direitos dos outros – e que sentimento tão agradável tem quem volta de uma manifestação! Essa é a sua força, o fato de tocar na essência do ser humano, a sua busca constante de ser uma pessoa autêntica, livre, autônoma.
Se esse for o legado da copa, já somos Hexa!

24 de jun de 2013

Diário de um desigrejado: Lugar de desigrejado é nas ruas


Levei minhas orações às ruas

No último sábado fui na manifestação em Belo Horizonte. Meu anseio por um país melhor pode ser externado num cartaz que fiz, no meu caminhar e nas orações que fiz durante o trajeto. Havia muitos grupos pedindo por mudanças em diversas áreas, como na saúde, na educação, na política, na distribuição de renda, etc. Representei o grupo dos que esperam não por melhorias momentâneas, mas pela constância que há na vinda do reino de Deus, que é reino de Paz e Justiça e jamais uma teocracia.

Assim que cheguei em casa, minha vontade era escrever um enorme relato do que presenciei na rua, passando pela chegada á Praça Sete e percorrendo toda a avenida Antônio Carlos, descrevendo as muitas crianças que acompanhavam seus pais e os mais velhos que iam alegres por poder acompanhar seus netos num momento importante, e ainda o Corpo de Bombeiros distribuindo água aos manifestantes. Mas cheguei ferido demais pelo que vi, e além disso poderia deixar minhas emoções falarem por mim. Calei-me para pecar menos.

Passei boa parte do trajeto sem acompanhar os coros e as palavras de ordem que eram proferidas. Preferi observar e sentir o ambiente. Aproveitei para orar durante o percurso. Pedi pela paz, pela não violência dos manifestantes, pedi por mudança de mentalidade do povo, pelo fim do "jeitinho brasileiro" que ora serve como motivação para o bem, ora para o mal. Orei para que meus irmãos evangélicos e católicos se manifestassem em seus púlpitos e nas ruas. Orei para que outro Martin Luther King Jr. surgisse em nossos dias. Orei.

Dizem que éramos 60, 70, 90, 125 mil pessoas. Era muita gente. Gente que ao chegar a um ponto da cidade foi impedida de continuar sua caminhada. Gente que, em sua maioria, nada vandalizou, mas foi vandalizada. Gente que com suas crianças fugiram para os bairros á margem da avenida. Gente que estava longe da área de conflito e foi dispersa por bombas e pela cavalaria. Eu pacifista por opção, revoltado, conclui que não é difícil cogitar uma revolta armada ou agir de maneira descabida num momento desses. Ainda bem que o pensamento ficou para trás.

Vandalismo e o noticiário

Não devemos ser inocentes ao ponto de acreditar que a maioria das pessoas que estão nos manifestos do Brasil sabem o motivo de estar nas ruas. Em BH tinha venda de água, cerveja e refrigerante no trajeto, e somado ao pessoal que puxava o povo com bateria e apito, não é difícil de confundir a manifestação com uma micareta. Do mesmo modo, pessoas que querem mudanças, "custe o que custar", estavam entre nós. A verdade é que alguns foram para enfrentar a polícia e alguns outros foram enfurecidos por não poder circular em uma rua que ajudaram a construir com seus impostos e, assim, levados pela emoção, destruíram lojas e jogaram pedras contra a polícia.

A caminhada começou com a paz presente e terminou com a ausência dela. A maior parte da manifestação foi pacífica, mas os meios de comunicação em geral preferem dar ênfase não aos cartazes ou ao objeto das manifestações: os políticos. A mídia atrai seu público pelo bizarro, pelo que choca a população. Infelizmente as pessoas mudariam de canal caso soubessem que no outro canal está mostrando gente sangrando "ao vivo". Não culpo a mídia. Ela vende o que as pessoas querem. E elas querem o pior.

Enquanto o vandalismo fizer parte das manifestações, estaremos perdendo a oportunidade de que a mídia seja obrigada a mostrar a razão da manifestação, isto é, o caos da saúde e da educação, o imoralismo de ter políticos condenados pelo Supremo Tribunal Federal atuando livremente em cargos públicos, os gastos com estádios em detrimento a outras áreas de maior prioridade, a reforma política, tributária etc. Infelizmente estamos perdendo nosso espaço para uma minoria que saiu de casa para ser penetra na verdadeira festa do povo. Por hora, eu não quero acreditar que tenham "infiltrados" no meio dos cidadãos de bem. Por hora...

A participação cristã

Eles estavam lá também. Eu acho. Não como nas grandes "Marchas para Jesus", mas estavam. Passou por mim um rapaz segurando a Bíblia como se fosse um cartaz. Ouvi um grupo de meninas repetirem algumas vezes "misericórdia". Tenho o péssimo hábito de ligar as pessoas que repetem muito essa palavra ao movimento evangélico. Talvez seja por ter aprendido que o nosso "nossa senhora", é o "misericórdia".

Fiquei muito triste por não visto um grande grupo com bandeiras e mensagens cristãs contra a corrupção ("contra a corrupção", sem proselitismo por favor). Talvez seja um erro meu acreditar que um povo que em sua maioria foi ensinado a olhar para seus próprios problemas e achar que o problema dos outros é castigo/correção de Deus, estaria disposto dar o grito de Amós: "Eu quero justiça, um mar de justiça. Eu quero integridade, rios de integridade".

Na história da América Latina, muitos padres foram instrumentos de Deus para libertar o povo sul-americano contra a opressão dos colonizadores ultramarinos. Eles mobilizaram o povo a se levantar em nome de Deus contra a injustiça. E eles se levantaram. Precisamos que nossos líderes espirituais possam dar um passo adiante daqueles padres "rebeldes". Um levante pacífico, desarmado, em prol do bem comum. Afinal de contas, como disse o profeta boiadeiro e colhedor de sicômoros, "O leão rugiu — quem não está com medo? O Eterno falou — qual profeta consegue ficar quieto?" (Am 3:8).

O Gigante ainda dorme

Se antecipou quem disse que "o gigante acordou". Ele no máximo despertou para beber água, fazer um "xixizinho" e já caminha de volta para a cama. O povo que está nas ruas, faz volume a cada dia. Mas ainda não tem uma ideologia comum que oriente e organize o movimento. Como dizia um cartaz que li, "são tantos os pedidos que apenas um cartaz não dá para escrever tudo". Os religiosos presentes eram são contra o grupo dos que pediam pela liberação da maconha e os que são contra a cura gay. Os representantes da ala LGBT são contra os religiosos. Os representantes "das vadias" são contra ideias moralizantes de seus corpos. Alguns estava contra a PEC 37, mas a maioria nem sabe do que se trata. Os que pedem a saída da presidente e seu vice, não sabem que quem assume é o presidente do Senado que é  rejeitado de forma unânime. Sem um norteador qualquer direção serve. Até mesmo para trás...

Tive meu dia em Babel e foi deprimente. O "Gigante" já volta para a cama. Não hoje. Não enquanto durar o evento da Fifa. Mas ele já caminha para o leito para ficar, quem sabe, "deitado eternamente..." Deus queira que não.

É preciso que a população engrosse a fileira pacifista do protesto. Gente que possa liderar os que ainda não sabem o porquê de estarem nas ruas. Precisamos de reuniões norteadoras para que sejam delimitados os principais pedidos, aqueles que são mais urgentes. É difícil, eu sei. Ficamos tanto tempo suportando a dor do pequeno caroço que apareceu como uma mancha na pele, que agora queremos remover todo um câncer da nação. É preciso ir um passo de cada vez ou iremos tropeçar em nossas pernas que quase definharam no "leito esplêndido".

Esperança que fica

A esperança sempre está presente. É ela quem me diz que o amanhã será melhor do que o presente. Não que teremos maior quantidade ou maior volume de pessoas nos próximos protestos. A esperança me diz que serviremos de exemplo para a próxima geração. Espero que tomem por exemplo os pacifistas e não os exaltados. É o que eu acredito: os manifestantes pacíficos mostraram que podemos sim ir às ruas.

Exemplo disso é o cartaz de uma garotinha, que deveria ter seis ou sete anos, que dizia mais ou menos isso: "A mamãe me ensinou que devo cuidar bem do meu país". Ler aquilo foi como ler um tipo de "perfeito louvor".

18 de jun de 2013

Apatia


Como muitos "irmãos" se posicionam neste momento tão importante.

17 de jun de 2013

Que se esvaziem as Igrejas; que se encham as ruas!


Esses são dias os quais o povo brasileiro tem sido agente de mudança através de protestos deflagrados em várias cidades do país. Os protestos iniciados em São Paulo vão dia após dia servido de incentivo aos demais brasileiros a se rebelarem contra o sistema de corrupção que suga as riquezas da nação e mantém o povo á margem de seus direitos e da justiça que lhe é negada.

E qual tem sido o papel da Igreja nesse contexto? Infelizmente a Igreja têm se calado face aos problemas e ás manifestações que vão enchendo as ruas. A apatia das comunidades religiosas talvez seja pela temeridade de perder o apoio político que receberam dos muitos políticos que se elegeram com o apoio do púlpito de muitos líderes cristãos. Uma vergonha.

Neste momento histórico de nossa história recente não temos nenhum líder cristão como expoente na luta pelo fim da corrupção e do uso indevido do dinheiro do povo. Em um país que se gaba por ter profetas, coisa que discordo, não vemos nenhum profeta como Amós, Oseias, Miquéias, Jeremias, Elias, etc. Tão pouco temos um homem como Marter Luther King Jr. para representar os cristãos no fronte do combate pacífico. É também neste momento histórico que a Igreja da História corre o risco de ser "a Igreja que ficou na história, vendo a banda passar". 

Ou a Igreja do Senhor Jesus se posiciona como agente de transformação neste momento, ou correrá o risco de ser lembrada como um grupo que se manifesta em prol de um Cristo morto e não ressurreto. E não é disso que o cristianismo se trata. A Igreja deve se posicionar nas ruas, nas redes sociais, em nossa não participação deste pandemônio que fizeram de nosso país com gastos exorbitantes em estádios de futebol, etc. Ou é Igreja da História é Igreja na História. "Que se esvaziem as Igrejas; que se encham as ruas!"

E se você acha que os problemas dos manifestantes "não é o seu", deixo esta reflexão do pastor alemão Martin Niemöller:
"Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu não protestei. Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, eu me calei. Então, quando vieram me buscar... Já não restava ninguém para protestar."
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